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Ensaio Reticom

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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

No Inferno Astral

A doce sensação de se permitir àquele leve depressão quase cênica, que condensa o tempo e o espaço. Que permite à delícia de uma dor quase escolhida, o peso das lágrimas alcançadas.

O céu se divide entre o azul mais vivo que meus olhos alcançaram e o cinza úmido mais cabível ao momento buscado.
O vento coreografa as folhas que as árvores se desfizeram e permite-me como espectadora de um dos mais belos espetáculos de dança, que alcança o tato, o olfato, a audição... quase num convite ao tempo para que deixe de ser linear.

E neste envolvente espiral me reencontro comigo mudada, num tempo que passa e me retorna presentes.
Na delícia de repensar no que foi vivido em 29 anos, avaliar o que construí dentro e fora de mim, não há necessidade de fuga frente ao aperto que começa de dentro, no centro.

A doce depressão quase cênica, com trilha sonora adequada, vozes rachadas... chuva, livro e filme que embargam a ânsia de uma alegria infantil, adiando e preparando novos conteúdos e estruturas que construam  uma nova felicidade.

Me permiti, antes de gozar do inferno, vomitar palavras sem nexo, sem a beleza da prolixidade ou das doces confusões metafóricas. Há textos que transmitem minha perdição num tempo sem controle até que cesse em mim o desejo de boiar na areia movediça, que envolve, abraça, conforta...

A doce sensação de depressão quase cênica do meu inferno astral.
Acredito quando faço acontecer. Me delicio quando perco controle do tempo que me joga de volta pra mim...

Eu vou voltar. Mudada, mas sem deixar de ser eu em busca de mim.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Acordei gorda!

Sabe quando a gente cede para as futilidades?
Acordei depressiva em pôr qualquer roupa para sair na rua. Acordei de mal com o espelho, lamentando minha barriga, minha bunda, minhas pernas...

A estupidez deste padrão de beleza é tão grande quanto sua força.
Permitimos olhar-nos e lamentar nosso corpo, quando deveríamos ter gratidão, por termos plena capacidade física e mental, para realizarmos tudo aquilo que realizamos no dia a dia.

Vejo crianças tão pequenas sofrendo por não atenderem um padrão imposto de beleza.
Por não serem magras, loiras, altas... Meninas de 15, 16 anos que sonham em fazer plásticas para alterar seu corpo, pois não são perfeitos. (??)
O imediatismo exige rótulos bonitos para que sejamos bem aceitos.
Falta-nos criar tempo para criarmos pessoas dentro destes rótulos.

Como a roupa que visto ou o tamanho da minha barriga pode incomodar ou impactar mais do que aquilo que falo ou faço?
As pessoas vêem mais fotos no facebook do que leem os blogs!
Nós construímos este valor e nos prendemos à ele, nos engrunhando num nó de depressão, solidão e  insatisfação. E deixamos que nossos pesos nos importem mais do que situações sociais inaceitáveis.

Nos limitamos a aparições externas. Viramos produtos de uma sociedade fruto farto da revolução industrial. Somo educados por marketeiros, cujo formato da embalagem e o rótulo deve desviar a atenção do conteúdo. Às embalagens feias não têm demanda!
Concorremos com a gente mesmo numa guerra fútil para uma beleza externa, e deixamo-nos cada vez mais vazios...
Vejo preocupações alimentícias focadas nas calorias, não nos nomes estranhos que mal identificamos, ou na origem e processo daquilo que chamamos de alimento.

Esta escolha por rótulos, escolha por sermos rótulos, contribui para outros comportamento ocos, como escolher um cachorro pela raça. Passamos a ser controlados pelo gosto imposto. Não temos mais certeza se gostamos do que gostamos, ou se gostamos para que os outros gostem da gente. Nos deparamos então, com uma sociedade farta de pessoas que agem previsivelmente, se afastando de si mesmo para poder se querida por outros que mal se conhecem.
Nosso comportamento social pode ser limitado ao Facebook. Um mundo de aparências, onde todos leem Nietchszie, todos amam animais, todos são belos e bonitos. Mas esta propaganda de margarina acaba assim que falta luz. No escuro, podemos nos mostrar monstros egoístas, que roubam e depredam, ações que gritam aquilo que a gente esconde.

Que difícil é encarar o mundo para aceitar ser você.
Pois escolho que minha embalagem será transparente, com rótulos diversos que as vezes vão agradar, outras não. Que as vezes vão enganar sobre o conteúdo. Que as vezes vão afastar, e outras, criar demanda.
Escolho ser mais fiel e exigente no que me preenche, no que me recheia.

Num mundo, como um grande mercado, produto sem rótulo não vende.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Ausência da religião e a imensidão da fé

Não, não tenho religião.
Não achei nenhum templo que louvasse o valores que cultivo
Não achei nenhum padre, bispo ou sacerdote que respeitasse a vida como eu julgo.
Não achei nenhum espaço que acolhesse quem realmente necessita e pessoas que dissessem "Não" ao dinheiro, entre escolhas maiores.

Não creio em deuses vingativos, homofóbicos, sexistas ou sanguinários.
Não me fez bem acreditar num velho julgador me olhando por cima, me apontando o dedo por ser feliz comigo mesma.
Não me guiam palavras invocadas por exploradores.
Não me acertam invocações de respostas imediatas, sem o caminho árduo do autoconhecimento, da empatia e da paciência.
Não creio na superioridade humana, não creio que consiga comprar em espaço no céu e não creio que posso bancar igrejas se mal consigo manter minha casa, contas e família.
Não posso entrar feliz num palácio que fecha as portas à quem tem fome e frio.

Acredito que as pessoas estão aqui para crescimento pessoal.
Acredito que os outros animais nos ensinam com olhar, comportamento e lealdade.
Acredito que o desafio é viver neste mundo de matéria criada, de vidas compradas, de dores esquecidas
sem perder o amor que vem de dentro. Pois quando brota o amor por si mesmo, você se percebe atrelado, como numa rede invisível, à todos os seres que compartilham desta terra. E cada nó desta rede afeta seu desenvolvimento, logo não é possível uma evolução plena e íntegra. Passa a ser sua responsabilidade o bem estar do próximo. Passa a te afetar as dores e as escolhas do outro.

Acredito que a vida é muito mais simples do que esta inventada pelo homem.
Sou invadida diariamente por forças extremas de vida que me tocam por meio das folhas, do vento, da água, do calor do sol... E há em mim um sentimento de gratidão que não há o que retribua, exceto ser uma pessoa melhor à este mundo que me acolhe.

Não tenho religião. Tenho algo muito maior ao fazer parte deste universo todo.
Meus Deuses não me ameaçam, não me julgam, não me condenam, não me cobram...
Meus Deuses me acolhem, me alimentam, me sustentam, me mostram...
Meus Deuses dançam e bebem. Porque ser feliz não é pecado!

Pecado é deixar-se guiar por aqueles não se importam com sua vida!
Pecado é deixar de amar por medo de sofrer
Pecado é querer comprar a garantia de ser feliz no futuro.
Pecado é não abrir seu presente.
Pecado é não viver aqui da melhor maneira que você acredita para ser feliz.
Pecado é não se ouvir, não se tocar, não se conhecer
Pecado é não sentir, é ignorar o que te pulsa. É dizer que não sabe dançar...
Não saber dançar é como não saber dormir!
Pecado é não VIVER!!

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Vomitada Verde e Amarelo

"Em menos de sete horas, mais de 10 mil pessoas se cadastraram no programa Brasil Voluntário"

Fonte: http://www.copa2014.gov.br/pt-br/noticia/em-apenas-sete-horas-mais-de-10-mil-pessoas-se-cadastraram-no-brasil-voluntario

O que há de errado comigo para uma notícia como esta me irritar tanto? Por que assistir campanha do governo solicitando trabalhadores para prestar serviços, de forma voluntária, para a Copa, me deixa tão perplexa??
Por que, há quase dois meses, eu aguardo formação de grupo (12 pessoas) para um curso de Alfabetização para Jovens e Adultos, de graça no Instituto Paulo Freire, e não há educadores interessados??
Por que a África morre de fome e doenças erradicadas desde que eu nasci e uma fortuna é investida em entretenimento barato e vulgar?
Como, da Copa no Brasil eu cheguei na África faminta??

Itaquera, uma das regiões periféricas mais pobres da cidade, foi escolhida para a abertura da Copa, na casa do time que carrega a maior torcida de SP ou do Brasil, sei lá (acho que perde em números para o Flamengo). Há então, um investimento significativo na região e desapropriação de milhares de famílias... Escolhem, no Rio, o Museu do Índio para um ótimo e amplo estacionamento. Quem liga?? Índio vai virar lenda para as próximas gerações. Enquanto desenrola toda uma estrutura para a Copa, nossas matas e índios nativos são devastados por outros interesses econômicos. Milhares de abaixo assinados vêm parar na minha caixa de email... adianta?? Mesmo??

Enquanto isso, a população brasileira morre afogada nas chuvas que, sempre, sempre é maior do que o previsto, todo ano!! Subgrupos se acumulam nas praças ou nos eventos on line para gritarem contra outro aumento da passagem de ônibus ou contra políticos acusados adquirirem novos cargos públicos ou contra a imprensa de manipula a cabeça das pessoas. Veículos criticados são líderes de consumo!! (Claro... estes mesmos cidadãos, consumidores, leitores e espectadores, que devem se candidatar a trabalhar de graça para um governo vagabundo numa copa sem nenhum cabimento moral!)
Os que protestam de alguma forma, são jovens, filhos da ditadura que tentam fazer a diferença sem saber como... Não sabemos como chegar onde queremos chegar. Não temos um inimigo à combater... temos partículas do mal em todo o ar. Lutamos contra quem? Contra o que?? Contra o capitalismo soa tão utópico, quase juvenil...

Vou chegar na África...
Vender tudo e largar a família para ir ao outro lado do globo assistir à um jogo de futebol, é traduzido como amor, loucura, paixão... bons adjetivos! Largar tudo e tentar ajudar uma alma que seja na África ou nas comunidades ribeirinhas brasileiras, sem qualquer subsídio do governo é insanidade, viagem, loucura em contextos negativos. Não ter emprego fixo é arriscar muito... nossa! Que loucura! Se arrastar todos os dias para algo que não é natural, quissá saudável, em um ambiente hostil e competitivo é a ordem. Loucura é sair de casa e virar andarilho, sem ter garantias do que comer, do que vestir, onde dormir... É supernormal trocar os dias, vender a vida em parcelas que garantam um bom restaurante, uma cama quente e roupas de marca... Não crítico a loucura, gosto e valores de cada um. Mas lembremos que nossas escolham geram consequências que envolvem outras pessoas.

Estes 10 mil voluntários certamente reclamam de um governo sedento e injusto atuante no Brasil. Pagam, por ano, quatro meses de trabalho, direto nas mãos do governo. Mesmo assim se voluntariam para servir turistas na copa... Lembro quando o Bush filho veio visitar o Brasil e um grande tapume fora levantado diante as favelas, para que a pobreza não fosse vista.

A verdade é que um grande tapume fora levantado nas extremidades de nossos olhos. Não conseguimos enxergar a África... Não conseguimos mais nos chocar com a violência da polícia invadindo barracos e expulsando pessoas de lá... Já aceitamos viver em barracos, ao lado de córregos imundos. Já aceitamos ter que pagar por tudo que nos é de direito constitucional (saúde, educação, moradia e alimentação). Já aceitamos pegar três caras conduções por um emprego qualquer que pague ao governo o que ele nos deve!
Aceitamos tudo sorrindo, sambando, bebendo... E agora, por que não? Sejamos voluntário em um evento que movimenta milhões de reais para o entretenimento gringo, burguês!

Preciso de 10 pessoas interessadas em aprender a alfabetizar adultos, para fechar um grupo. De graça!! No Instituto Paulo Freire!!! Sabem quem foi Paulo Freire???

A África não me passa!! Não consigo entender, aceitar... Vivemos numa educação que acatou aos Holocausto! Acata até hoje...

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Movimentos e palavras anexos

Não há nada como a possibilidade de se acessar. Vasculhar no cérebro e no coração pesos e culpas, sonhos e lutas, risos e choros que me trouxeram e me fazem o que sou, onde estou.
A delícia em abrir o presente e lembrar que são frutos que plantei no passado. Tem exatamente o gosto que semeei. Reencontrar momentos...

A certeza de que minha verdade não é loucura, estrutura meus próximos passos para objetivos que deixarão de ser sonhos. Alimenta a confiança em algo maior que só cabe na infinitude da vida daqueles que aprendem a viver na eterna e diária batalha de negar a ficção física e os papeis que geram mortes. Papeis que geram mortes, que surgem a partir de árvores que simbolizam a vida. Que crescem pra cima, desafiando a gravidade. Que se alimentam da terra permitindo seus galhos que sonhem com céu. Buscam as nuvens carregando folhas, frutos e aves, mantendo-se firme frente ao tempo que não anseia.

Que delícia poder sentir o tempo passar por entre os poros e os pensamentos.
Que delícia permitir meu corpo de suar ao som do batuque baiano, dobrar os dedos dos pés sobre a terra e sentir as gotas que escorrem na franja que me cega. De olhos fechados, a música troca com a água que produzo. Uma entra, enquanto a outra sai.
Que delícia sentir a força das minhas pernas concentradas nos movimentos sem nexo que dialoga com a ruptura do silêncio. O silêncio que habitava em mim. O silêncio acumulado de palavras que não saiam e expulsei pela exaustão física.

Não escrever me entope. A ausência das palavras e suas junções que consigam expressar o que me invade, de dentro pra fora ou ao contrário, me entope de vazio o que ameaça explodir a qualquer momento. Por isso danço! Vazam palavras sem nexo, frases sem coerência... se explodir, não terei mais controle do que sai. Eis, mais uma vez, beirando minha estrada, a beleza da loucura. Por isso, danço! Onde a verdade que vaza não mais precisa fazer sentido àqueles que se esforçam a adaptação inquestionável da vida aqui.  Busco o equilíbrio de ser o que me transformo sem afetar os que me cercam... não acho um equilíbrio sadio, pois muito do que vaga sem resposta em mim, busca uma saída rápida e segura para que o outro não questione, o que deveria, mas não sei, responder. Por que deveria?? 

Tentar entender tudo que se sente é utópico. Por isso, eu danço!



sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Desvairando o ano letivo

Meu estômago se contorce como meu corpo não poderia suportar
Concentra-se onde deveria digerir aquilo que eu escolhi mastigar
Engulo pedaços inteiros pois não há esforços externos que ajudem a triturar
A realidade medíocre e desigual que a maioria escolhe acreditar

Me desgosto, me desgasto
Invisto, saio e gasto
Relembro, releio, refaço

Me corrói a indisponibilidade, a indiferença, a irresponsabilidade
O orgulho, o consumo, o conforto, a preguiça não têm maturidade
Só seremos melhores de fato se nos desconstruirmos da verdade
Quando percebemos que fazemos parte do todo ao alimentarmos a iniquidade

Me despeço, sem apreço
Com choro, sem cheiro
Acho chuva desespero

Chovo tempestade que lava o que acumula nas terras e nas nuvens
Enquanto passeiam desfilando, cantando, se queixando, se afogando
Refresco minha alma inundando meu corpo
Agradecendo por mim e lamentando pelo morto.


Colhendo melões

Um ano em um dia!
Noite pingada, ansiedade vazante
Sonhos interrompidos por expectativas
Que nos trazem a vitória sem os passos de antes

Agarrar a esperança e o amor com os dedos
Pra que não escape, em nenhuma respiração
A gratidão infinita que engole qualquer medo
Que eleva seu estado até o próximo "não"

E em três horas padeço
Meu corpo reage, minhas lágrimas me afogam
Não mais me fortalece o meu apreço
Me contamina a superficialidade que outros rogam

A vida nos entrega o que merecemos
Plantamos sementes, mas não é certo o que colheremos
Se buscamos por água e pão, de certo podemos encontrar
Consistência para mastigar, nossa sede irá matar
Num pé de melão que nem ousamos plantar.

Te brota o que és teu de fato
O jardim do outro é lindo aos teus olhos
Mas há de custar ao outro os seus próprios.

Sou grata às minhas sementes de frutos
Que haverá de crescer para alguém saborear
Em meu caminho, encontro brotos que desfruto
Com a gratidão à quem um dia quis plantar.




quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Santa Paciência

Não me peçam paciência.
Eis um sentimento que pulsa em mim sem qualquer tentativa de ser agradável.
Eis algo que me ultrapassa e me equilibra sem que eu reflita.
Algo que se faz presente mesmo quando escolho não mais tê-la.
Está em mim sem que eu tenha qualquer controle. Eis a ausência da loucura, que pode ser doce...

Minha paciência me faz aceitar a matança e exploração de animais julgados sem valores, exceto comerciais.
Minha paciência me faz andar com meus cachorros presos ao pescoço para que não incomodem os humanos. Me faz confiná-los em casa, atrelando a liberdade deles à minha vontade de caminhar.
Minha paciência me faz respirar a fumaça preta dos carros e a densa e branca de corpos, saída de churrascarias. No qual tenho que aceitar serem chamadas de restaurantes.

Minha paciência me faz ignorar vidas abandonadas, sem qualquer condição de sobrevida.
Minha paciência me faz rir embriagada ao lado de um pedaço de corpo servido com ossos ao prato vizinho.
Minha paciência guia jogos e atividades às crianças, que se quer brincam... E têm os olhos guiados pelo estômago, fisgado na carne morta que, se quer mata a fome de quem tem.
Minha paciência vira omissão frente à um mundo repleto de injustiças descaradas onde todo mundo vê e repassa ou paga o incômodo. Onde nada é culpa de ninguém. Onde os bens materiais são justificados pela luta do trabalho diário.

Minha paciência me irrita! Me irrita pensar nos que tiveram tanta paciência frente à escravidão, frente ao holocausto. Me irrita aos que, na época, não puderam fazer nada, exceto aceitar com a paciência o caminho do homem branco. Me irrita aceitar com paciência que tratemos outras espécies do mesmo modo, como propriedades e nem se quer conseguimos respeitar a nossa. Me irrita ter que esquecer por uns momentos que há crianças morrendo de doenças erradicadas e fome em lugares distantes, pois preciso me concentrar no trabalho que paga minha internet e celular. Minha paciência me irrita!!

Se nossas insatisfações, nossas revoltas, nosso senso de justiça e noção de certo e errado, ainda são calados e boicotados por uma paciência que serve para nos manter na linha confortável da nossa medíocre existência  material, que venha uma revolta sem paciência da mãe natureza e nos proponha sentir medo, fome, desesperos comuns àqueles que mantemos longe de nossos olhos, distantes de nossa mente. Que venha a força dos oceanos, do vento, a precisão do fogo, a fome da terra para lembrar-nos que somos bichos. E que nossa prioridade deveria ser viver um dia de cada vez, e que só a fome de um deveria estabelecer o limite da liberdade do outro.




sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Falta em mim..

Falta ousadia. Não tecnológica. Humana!
Falta coragem de abrir mão do seu pelo o outro
Falta autoconfiança, porque dinheiro não compra muita coisa
Falta curiosidade em descobrir que coisas são essas...

Falta interesse pelo outro, pelo meio, pelo futuro
Falta consideração para com os filhos, os pais
Falta lembrar que somos animais.

Falta usufruir antes de perder...
Coisas, pessoas, educação, esperança.
Falta faltar no trabalho quando alguém morre
Falta faltar na reunião da empresa pra ir na da escola

Falta dinheiro que compre noção, respeito, empatia
Falta prática na teoria.

Falta Deuses nas igrejas
Falta alimento nas comidas
Falta água na terra
Falta relação nas famílias.
Falta cidadão nas políticas.

Falta faltar pra gente mudar
Falta faltar no prato pra considerar a fome
Falta intolerância para com violência
Falta amor próprio, falta masturbação, falta noção.

Faltam árvores, e faltam sombras
Falta fruta no suco, falta filosofia na cerveja, falta conceito nas palavras
Faltam brincadeiras nas crianças, faltam pais nos responsáveis.

Falta de luz elétrica acaba com o ser humano...


quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Olhar de turista

Escolho uma segunda de sol para passear pela cidade.
Ver SP com olhos de turista, onde tudo encanta e deixa saudade.
Passeei no Metrô até chegar a estação São Bento
Na rua sou recebida com folhas que dançam ao vento

Muitas árvores dão vida à um centro abandonado
Pombas, cães e pessoas dividem o gramado.
No calçadão, em frente à Secretária de Habitação
Um prédio inteiro tomado. Aos cuidados de uma população,
Sem moradia, sem emprego, sem cuidado.

Exercer cidadania não é apenas o lado bonito de uma sociedade doente
É buscar direitos básicos, defendido pela Constituição vigente
Na entrada do prédio, uma faixa escrita a mão convida
Para quem não tiver onde morar, tiver força e vontade de lutar
Que entre, pois o prédio abriga!

Estirados ao sol, colares, brincos e pulseiras de sementes
Elaboradas às mãos de algum morador sorridente
Da rua ou do prédio, alguns me acenam contentes
Diante a cena, percebi engravatados carentes

A diferença em não ter bens é o conceito de liberdade
Se por um lado comprar nos integra na sociedade
Por outro, nos mantém algemados na cidade
Fingindo criticidade, acreditando na autoridade.

Os bens de que não os têm é a troca constante
Vendem, compram, trabalham para viver o instante
Assumem o risco de serem itinerantes

Voltando à estação, meus ouvidos guiam meus olhos ao piano
Mochila no chão, um garoto atropela a pressa paulistana
De olhos fechados em meio a correria, Sinto a ventania deste tempo insano
Um olhar circular me exibe, o que me doeria,
Mas vejo nítido tudo que a vida engana.

A escolha é nossa, diária
Transformar instantes em momentos
Fugir de uma rotina sedentária
Viver em nosso tempo.