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Ensaio Reticom

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sábado, 16 de maio de 2015

O que me filtra

O que me filtra do ódio dos homens e
Me purifica da ganância da matéria:
O voo livre do pássaro que sobrevive;
A esperança na luta que ainda vive!
O trabalho árduo da formiga não pisada;
A gosma da lesma verde já passada;
O ferrão da abelha na lágrima derramada.
O verde no asfalto rompido;
O cachorro no passeio contido;
A descoberta nos olhos do oprimido;
O valor das instituições corrompido.
O sorriso depois do gozo descoberto;
O acesso ao amor encoberto,
pela ira da ganância dos homens.



 


 
 

sábado, 4 de abril de 2015

Massa de Pânico

Medo em doses diárias.
A violência dissolvida e condensada.
Educação precária
Cultura assassinada.
Pobreza generalizada,
De corpo, de alma.
Pânico como um guarda-chuva gigante
Que assombra, faz sombra
Se transforma feito mutante.
Em risos histéricos, relacionamentos periféricos
Amores cotidianos, vida em rotina.
Poluição ardente, resseca os lábios, queima a retina.
Lágrimas não hidratam
Saliva não é água.
Rua não é cama, cigarro não é colo.
Emprego não sustenta e esperteza não é dolo.
Somos juntos, massa do bolo.
A ser assado e ser servido.
Espero que queime a sermos devorados vivos.

quinta-feira, 12 de março de 2015

Não eram mais flores

Não eram mais flores que conquistavam desculpas, teciam elogios ou faturavam a noite.
Não eram mais rosas vermelhas que condensavam o amor que o homem não sabe descrever.
Não eram mais rosas amarelas que fortaleciam amizades ou as brancas que faziam a paz nas relações. Não eram mais os cravos que aconchegavam a saudade na cara da morte.
Não eram mais os antúrios que proporcionava noites de gozo às mulheres solitárias. Não eram mais os lírios laranjas ou Copos-de-Leite que faziam a beleza do ritual dito sacro. Não eram mais samambaias que suportavam a opressão dos apartamentos, nem mais a Espada de São Jorge que protegia do mau olhado. Não era mais o boldo que curava o estômago, nem a hortelã que refrescava o hálito. Não eram mais os ipês que coloriam a cidade. Nem mais o eucalipto salvava a sensação do reflorestamento. As macieiras já não provavam a gravidade, e a laranjeira não perfumava mais os campos. Romã não curava a garganta e o potássio da banana não aliviava as câimbras. O azedo do morango não arrepiava mais de dentro pra fora, como foram as paixões. As frutas nasciam estéreis nas gôndolas do supermercado, e as cascas, que protegiam a carne sem gosto, tinham o brilho dos plásticos. As raízes acimentadas levaram os pássaros sobreviventes a acreditarem na prisão. Os cantos que se ouvia, vinham apenas de caminhão. Não tinha mais grama para proibir pisar, fonte para não se banhar ou nas nuvens, desenhos para acreditar. Não havia mais motivo para olhar pra cima, nem chuva mais chovia para não molhar. Não precisava mais correr, do sol se proteger, água pra filtrar, nem a lembrança de plantar. Barro não sujava mais, formiga não picava e abelha não voava. A areia não se escondia sob as unhas e as ondas não desequilibravam já que o mar não mais se movimentava. Era um grande acumulado negro de petróleo brilhante, denso e farto, garantindo a principal matéria prima da vida humana e iludindo os olhos que ainda acreditavam nas cores. Não eram mais as relações humanas, eram as relações coisais que nos garantiam. Não era mais tristeza, nem solidão. Não era mais carinho, bichinho… Não tinha mais mais emprego ou patrão. Não era o sexo que aliviava, mas também não culpava. Não era mais excitação que constrangia, nem tesão que motivava. Não tinha choro, nem vela, nem violetas na janela. Não tinha cão ou dragão, mistério ou comédia, galã nem bufão, livros ou novela. Não éramos mais humanos…
Éramos o resto de um pesadelo que ecoava na mente dela.

08 de Março, 2015

Sou mulher!
Sou menina, negra, indígena, europeia
Sou o que corre no sangue e do sangue que planta na terra.
Sou violada, consumida, mutilada.
Sou fruto histórico, de processos revolucionários e de resistência.
Sou a dor de ser vendida, trocada, usada.
Sou mãe, filha caçula, amante, namorada.
Sou resultado de lutas constantes, vencidas e derrotadas.
Sou o clitóris cortado, o corpo abusado, a carne vendida.
Sou a pele enrugada, a beleza desprezada, o frio na barriga.
Sou a culpa do mundo e sangro por isso!
Sou o ventre que pare e a culpa disso.
Sou responsável pela dor, pelo pecado, pelo prazer.
Sou pacto com o diabo, lascivo e úmido poder!
Sou o mundo rosa, lilás, violeta, vermelho, vinho e preto.
Sou rotina de guerra com corpo, desejos, culpas e medos.
Sou complexa que cala e atura.
Sou inteira quando grito na luta.

Sou trabalhadora explorada, mão de obra barata.
Sou a irmã, a vó e a mãe do filho da puta.
Sou gay, sou bi, sou trans, sou de todos os gêneros.
Sou o que o mundo anula e amordaça de todos os jeitos.
Sou o colorido de toda mistura.
Sou animal contra-cultura.
Sou o útero que nega,
o corpo que carrega,
contra patriarcado, a cura!

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Presos

Há presos nas celas, nas salas, nos trens.
Há presos no tempo, no medo, nos bens.
Há presos em sentimentos, algemas, medalhas.
Há presos no sonho, nos risos, nas lágrimas.

Presos em empregos, rotinas, manias.
Presos à família, tradição, apatia.
Presos perdidos que seguem e fogem,
Presos focados que chegam e morrem.
Presos na vida por medo da morte.

Penso...

Penso se controlamos o externo para que não tenhamos a consciência de que o interno não nos pertence.

Penso se criamos objetivos para não nos perdemos no infinito subjetivo que nos transita.

Penso se as regras não são apenas a mordaça na liberdade sem conceito que nos define.

Penso se os jogos sociais não são estabelecidos para que não lembremos que a solidão é nosso cerne.

Penso se não pensamos tanto apenas para calar nossos instintos.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Virá!!

Virá uma geração de comunistas e anarquistas que resistirão aos impulsos sociais de instituir família sob uma relação monogâmica;

Virá uma geração que buscará a revolução dentro de sua própria realidade, buscando reestruturar as relações familiares a partir da empatia e da alteridade, como se deve ter com qualquer outro ser vivo;

Virá uma geração que entenderá que deus está nas manifestações do oprimido, no silêncio dos assassinados, e que paga penitência sob os chicotes de quem tem fé;

Virá uma geração filha da alienação e do egoísmo, que não mais acreditará no amor instantâneo, genético, de rótulos, produto pronto;

Virá uma geração que compreenderá a importância do outro na preservação da vida, do riso, do prazer e assim, conhecerá o amor e a liberdade;

Virá uma geração que entenderá a dor como passagem e como alarme para compreensões maiores, e anulará assim o sofrimento;

Virá uma geração que só conseguirá usufruir do trabalho presente, de produções compostas por seu próprio sangue e suor, negando produtos cujo trabalho não se viveu;

Virá uma geração que descobrirá o prazer ao calar o individualismo;

Virá uma geração que viverá a diversidade como cultura e o compartilhar como sociedade;

Virá uma geração que aceitará como teto apenas as estrelas e como alimento apenas o que brota;

Virá uma geração que louvará mais a terra que o céu, mais a vida que os santos;

Virá!


segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Água Corrente

Seu olhar apaixonado buscava o céu e se deparava com concretos cinzas, de uma imensidão material que condena, sem disfarces, qualquer relação com o subjetivo. Ainda assim, era possível sorrir. O que lhe tomava por dentro foi construído com aquele olhar vivo e negro em meio aos zumbis programados das metrópoles; aquela leitura ousada ao pé do ouvido, mesclada ainda, em outro espaço de tempo, com alguma reza cabocla cuja sonoridade lhe fazia contorcer as pernas, mesmo sem entender o significado das palavras. Aquelas vogais na voz rouca... E a barba. As barbas que já lhe roçaram o rosto, num misto de cócegas e prazer, que faziam um riso contido se perder num gemido solto... Sons agudos que lhe traziam à mente as peles finas dos pescoços femininos que seus lábios já tocaram.
Com as mãos plenas de sabão, se percebera apaixonada pela vida que lhe encontrava. Que lhe confrontava nos caminhos cotidianos quando as coisas pareciam perder o sentido. Lá estava a vida, com todo seu ar que envolve e abraça o corpo que se entende sem rumo, apoiado nas razões alheias, empurrado pelas urgências terceiras. Sentia que seu valor de vida estava nas manifestações das vidas que mostravam-se únicas, quando enxergavam-se ímpares frente ao todo. Excitava a percepção do outro se perceber único entre sete bilhões de seres humanos. Era isso que a encantava!
Sorriu de novo ao lembrar das mãos enrugadas das mulheres grandiosas, que reconheciam em sua mão, pequena e fina, a ausência do trabalho na terra, da colheita, da enxada. Que viam em seu corpo a escolha em não ser o corpo dos outros, seja como esposa, seja como mãe. Olhares fundos cujas cataratas exibiam a força das quedas, das águas, dos úteros, o sagrado das mulheres. Uma gota de água lhe escapou aos olhos... Como eram sacras e violadas as vidas das mulheres...
O quanto demora uma enxurrada, ao debruçar-se na terra seca, árida e morta, para fazer-lhe brotar de novo? Para curar as rachaduras das exigências, dos maus tratos? Que se soltem as mulheres! É preciso cachoeiras que hidrate a terra explorada, e só com esta união haverá sementes e brotos novos... Eis nesta analogia a liberdade que gozas! Mesmo como um fio de água em queda livre, as pedras, musgos, plantas e secas que estruturam seu caminho, te fazem água corrente.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

no meu tempo...

Sou do tempo em que...
liberdade não era conceito político.
Era sabedoria popular.
Família não era feita de tradição,
e seu desafio não era aceitar.
O amor vinha antes, e
só se chamava de família,
quando se conseguia aconchegar.
Sou do tempo em que...
o futuro não tomava lugar.
Se vivia o presente como um presentear.
Não se pensava em Estado,
Regras de governar.
Não tinha muros, grades ou cercas,
pois tínhamos todos a terra como lar.
Sou do tempo em que...
as crianças passavam a manhã no pomar.
Trepando em árvores, colhendo frutos,
Enquanto todo mundo adulto
Preparava o vinho pro jantar.
A força de trabalho não era forçada,
era o prazer de colher o que plantar,
de compartilhar vivências, de ter o que trocar.
Sou do tempo em que o tempo não tinha importância.
O sono vinha à noite, a chuva aproximava, o sexo celebrava!
Não havia militância, extravagância nem ganância.
Arte, plantas e sonhos era, entre tudo, o que mais brotava.
Nada dividia, separava... as diferenças eram o que apaixonava.
Num lugar ainda perdido, de sonos não dormidos, de desejos reprimidos
Desenvolvem estruturas do que ainda hoje se entende loucura.

sábado, 8 de novembro de 2014

Transição

Descobri, no afastamento, um mundo barulho.
Reclamações, sirenes, xingamentos...
Ninguém me parece feliz dentro do embrulho.
Me afastei, numa avaliação de mim, no todo, no mundo.

Não empreguei minha força de trabalho.
Mesmo não vendo a fuga como atalho.
Esperei meu instante inteira,
Para voltar e negar a prateleira.

Corri na chuva, depois da morte
Me senti molhada, em competição
Como o que antecede o embrião
Em busca do útero, esperando o corte.

Foi só uma sensação...
Entre minha vida e uma morte
Resumindo a toda pressão

Do que buscamos ter suporte. 

Bambas estruturas cálidas
Impulsivas, respeitosas...
Frágeis momentos sólidos
Decisivos, prazerosos...