Numa parada necessária e contra imposta ela escuta as risadas das crianças da praça, e alcança o sorriso quase sarcástico da lua, que se exibe completando-se. Da risada ingênua, surgida num degrau, num abraço, num banco, num encontro ao sorriso maduro, ancião que quase desdenha as alegrias superficiais que ilustram o todo cruel das mãos humanas.
Na estúpida cidade corrente, sentada no chão imundo que sente passar a história humana, de prepotência exuberante e que entope as veias da natureza artística que nos faz humanos. As expressões interrompidas pelas decisões alheias sobre o que fazer com nossas próprias vidas. E quando nos sobra o corpo marcado, mutilado, desprezado, moldado a ser forma que não somos, que não temos.
Alienação plena que nos afasta de nós mesmos, de nos conhecermos. Ela reencontra na arte com o outro, o não-espaço de acesso ao que poderia ser se lhe fosse permitido tempo para se conhecer. E quase que naturalmente egos se fazem muralhas entre ela e os outros, entre os outros e seu olhar de caça. Que caça olhares inquietos que buscam ver oxigênio em meio à fumaça preta que rotula o atualmente proposto. O que ler? O que vestir? Como agir num reforço ignorante e coercitivo ao ser que tenta sair e que nem ao menos sabe o que é.
domingo, 26 de julho de 2015
quarta-feira, 10 de junho de 2015
Fazia tempo
Fazia tempo que não chovia assim. Continuamente, sem um raio de sol, o
dia inteiro. O céu cinza e aquela chuva interminável, como sua vontade
envolvente de não fazer nada! Parado na janela olhava a água lavar a
mesa do jardim, o tapete que não recolheu, e a ausência dos pássaros,
que vez ou outra se manifestavam ocultos, preenchia o cenário triste com
a trilha adequada.
Fazia tempo que não assistia àquele filme que parece ir juntando todos os órgãos bem no meio do corpo, e no fim, estrangula tudo. Aquela situação que o faz parecer o mais inútil dos humanos, sofrendo por algo tão piegas frente a tanta injustiça do mundo. Mesmo assim, seu sentimento não minimizou, e no seu buraco interno, não cabiam as dores sociais.
Fazia tempo que não tocava aquela música. Parecia estar pausada numa rádio qualquer, esperando o idiota sintonizar e colocar os fones só para ouvi-la. Ouviu inteira, e depois jogou o celular no chão. Fazia tempo que aquele aparelho foi importante, quando havia se tornado uma extensão do outro quando longe, e nunca mais o deixara distante.
Fazia tempo que não ficava parado, sem fazer nada, sem pensar… Apenas sentindo a dor aguda que lhe comprimia o peito e lhe impedia de respirar. O choro vinha feito um tsunami! Sentia o recuo das ondas nos seu corpo, a formação daquele acúmulo de água a ser despejado sobre seu corpo, que se contorcia no sofá. As dores tornaram-se físicas, e contraía toda sua musculatura, até que, em posição fetal, silenciasse a angústia. Mas era só outro intervalo, numa exaustão orgânica e catatônica, sem controle.
Fazia tempo que não se sentia tão sozinho e que o vinho não embriagava a dor.
Fazia tempo que a solidão não corroía tanto, e nada parecia mais reticente do que aquele corredor . Todo aquele silêncio começou a assustar, e o eco da casa esvaziada ampliava o monstro que insistia em sair de dentro dele, mas seus rugidos guturais não o soltavam! Era lá que este bicho insistia em ficar, dilacerando tudo até que o fizesse sentir oco. E foi assim, ao escurecer. Não sentiu o tempo correr e quando se deu conta, parecia estar de olhos fechados.
Se debruçou na janela, e a luz amarela vinda da rua o fez enxergar as plantas, mais verdes que antes… Pareciam felizes!
Levantou, desviou de moveis que não estavam mais lá, acendeu a luz da sala e se deparou com o antigo espelho, que parecia fixado na parede desde que seus avós terminaram a casa. Seus olhos inchados, a pele vermelha, o fizeram a começar a chorar de novo. Mas sua cabeça latejava, não conseguia mais. Não suportava mais a dor que já se tornara física. Fechou os olhos ardidos e lembrou que o amor já foi feito de aroma, de cores reluzentes, de palavras inventadas para um espaço novo de habitação. Todos os sonhos criados e uma rotina almejada que buscam singularidades que provem que o amor, aquele amor, é tão único e forte como o sol. Mas assim como com o sol, os dias que acreditamos que sua energia é inesgotável se estendem, e ele de tão essencial, não se faz mais tão contemplativo. Apenas faz parte do que a vida é!
Fazia tempo que não imaginava a impossibilidade da vida sem sol. E foi na dor, que se perdeu na compreensão da essencialidade do amor.
Fazia tempo que não assistia àquele filme que parece ir juntando todos os órgãos bem no meio do corpo, e no fim, estrangula tudo. Aquela situação que o faz parecer o mais inútil dos humanos, sofrendo por algo tão piegas frente a tanta injustiça do mundo. Mesmo assim, seu sentimento não minimizou, e no seu buraco interno, não cabiam as dores sociais.
Fazia tempo que não tocava aquela música. Parecia estar pausada numa rádio qualquer, esperando o idiota sintonizar e colocar os fones só para ouvi-la. Ouviu inteira, e depois jogou o celular no chão. Fazia tempo que aquele aparelho foi importante, quando havia se tornado uma extensão do outro quando longe, e nunca mais o deixara distante.
Fazia tempo que não ficava parado, sem fazer nada, sem pensar… Apenas sentindo a dor aguda que lhe comprimia o peito e lhe impedia de respirar. O choro vinha feito um tsunami! Sentia o recuo das ondas nos seu corpo, a formação daquele acúmulo de água a ser despejado sobre seu corpo, que se contorcia no sofá. As dores tornaram-se físicas, e contraía toda sua musculatura, até que, em posição fetal, silenciasse a angústia. Mas era só outro intervalo, numa exaustão orgânica e catatônica, sem controle.
Fazia tempo que não se sentia tão sozinho e que o vinho não embriagava a dor.
Fazia tempo que a solidão não corroía tanto, e nada parecia mais reticente do que aquele corredor . Todo aquele silêncio começou a assustar, e o eco da casa esvaziada ampliava o monstro que insistia em sair de dentro dele, mas seus rugidos guturais não o soltavam! Era lá que este bicho insistia em ficar, dilacerando tudo até que o fizesse sentir oco. E foi assim, ao escurecer. Não sentiu o tempo correr e quando se deu conta, parecia estar de olhos fechados.
Se debruçou na janela, e a luz amarela vinda da rua o fez enxergar as plantas, mais verdes que antes… Pareciam felizes!
Levantou, desviou de moveis que não estavam mais lá, acendeu a luz da sala e se deparou com o antigo espelho, que parecia fixado na parede desde que seus avós terminaram a casa. Seus olhos inchados, a pele vermelha, o fizeram a começar a chorar de novo. Mas sua cabeça latejava, não conseguia mais. Não suportava mais a dor que já se tornara física. Fechou os olhos ardidos e lembrou que o amor já foi feito de aroma, de cores reluzentes, de palavras inventadas para um espaço novo de habitação. Todos os sonhos criados e uma rotina almejada que buscam singularidades que provem que o amor, aquele amor, é tão único e forte como o sol. Mas assim como com o sol, os dias que acreditamos que sua energia é inesgotável se estendem, e ele de tão essencial, não se faz mais tão contemplativo. Apenas faz parte do que a vida é!
Fazia tempo que não imaginava a impossibilidade da vida sem sol. E foi na dor, que se perdeu na compreensão da essencialidade do amor.
terça-feira, 19 de maio de 2015
O que há em mim frente ao mundo?
Que dor me cabe frente ao homem que carrega feito caracol, o peso das latas e do papelão?
Que lágrimas me excedem frente à mulher que carrega seus filhos, um no ventre, uma nas costas e outro na mão?
Que cansaço me pesa frente à quem madruga pra fazer comida, ir ao emprego e morrer na condução?
Que desespero me cabe, frente à realidade de quem vende, come e dorme no que acha no chão?
Que apego devo ter na matéria descartável, que me proporciona prazer, originado e resultante da mais sádica produção?
Qual verdade prevalece entre nosso tamanho no universo e nossa tão vazia imensidão?
Que lágrimas me excedem frente à mulher que carrega seus filhos, um no ventre, uma nas costas e outro na mão?
Que cansaço me pesa frente à quem madruga pra fazer comida, ir ao emprego e morrer na condução?
Que desespero me cabe, frente à realidade de quem vende, come e dorme no que acha no chão?
Que apego devo ter na matéria descartável, que me proporciona prazer, originado e resultante da mais sádica produção?
Qual verdade prevalece entre nosso tamanho no universo e nossa tão vazia imensidão?
sábado, 16 de maio de 2015
Soneto para outra perspectiva sobre amor
O amor opositor ao egoísmo
O amor que não possui.
Posse que leva ao abismo
Silencia o sentimento que rui.
Amor não se limita em quartos,
Não respeita molduras, não o retém.
Não se abafa sob telhados.
Se for assim, não é de ninguém.
Amor habita no autorrespeito
No diferente que nos tira do lugar
No outro, ser inteiro por direito.
Amor só brota na soltura
Só habita em que se arriscar
A voar a partir de certa altura.
O amor que não possui.
Posse que leva ao abismo
Silencia o sentimento que rui.
Amor não se limita em quartos,
Não respeita molduras, não o retém.
Não se abafa sob telhados.
Se for assim, não é de ninguém.
Amor habita no autorrespeito
No diferente que nos tira do lugar
No outro, ser inteiro por direito.
Amor só brota na soltura
Só habita em que se arriscar
A voar a partir de certa altura.
O que me filtra
O que me filtra do ódio dos homens e
Me purifica da ganância da matéria:
O voo livre do pássaro que sobrevive;
A esperança na luta que ainda vive!
O trabalho árduo da formiga não pisada;
A gosma da lesma verde já passada;
O ferrão da abelha na lágrima derramada.
O verde no asfalto rompido;
O cachorro no passeio contido;
A descoberta nos olhos do oprimido;
O valor das instituições corrompido.
O sorriso depois do gozo descoberto;
O acesso ao amor encoberto,
pela ira da ganância dos homens.
Me purifica da ganância da matéria:
O voo livre do pássaro que sobrevive;
A esperança na luta que ainda vive!
O trabalho árduo da formiga não pisada;
A gosma da lesma verde já passada;
O ferrão da abelha na lágrima derramada.
O verde no asfalto rompido;
O cachorro no passeio contido;
A descoberta nos olhos do oprimido;
O valor das instituições corrompido.
O sorriso depois do gozo descoberto;
O acesso ao amor encoberto,
pela ira da ganância dos homens.
sábado, 4 de abril de 2015
Massa de Pânico
Medo em doses diárias.
A violência dissolvida e condensada.
Educação precária
Cultura assassinada.
Pobreza generalizada,
De corpo, de alma.
Pânico como um guarda-chuva gigante
Que assombra, faz sombra
Se transforma feito mutante.
Em risos histéricos, relacionamentos periféricos
Amores cotidianos, vida em rotina.
Poluição ardente, resseca os lábios, queima a retina.
Lágrimas não hidratam
Saliva não é água.
Rua não é cama, cigarro não é colo.
Emprego não sustenta e esperteza não é dolo.
Somos juntos, massa do bolo.
A ser assado e ser servido.
Espero que queime a sermos devorados vivos.
A violência dissolvida e condensada.
Educação precária
Cultura assassinada.
Pobreza generalizada,
De corpo, de alma.
Pânico como um guarda-chuva gigante
Que assombra, faz sombra
Se transforma feito mutante.
Em risos histéricos, relacionamentos periféricos
Amores cotidianos, vida em rotina.
Poluição ardente, resseca os lábios, queima a retina.
Lágrimas não hidratam
Saliva não é água.
Rua não é cama, cigarro não é colo.
Emprego não sustenta e esperteza não é dolo.
Somos juntos, massa do bolo.
A ser assado e ser servido.
Espero que queime a sermos devorados vivos.
quinta-feira, 12 de março de 2015
Não eram mais flores
Não eram mais flores que conquistavam desculpas, teciam elogios ou
faturavam a noite.
Não eram mais rosas vermelhas que condensavam o amor que o homem não sabe descrever.
Não eram mais rosas amarelas que fortaleciam amizades ou as brancas que faziam a paz nas relações. Não eram mais os cravos que aconchegavam a saudade na cara da morte.
Não eram mais os antúrios que proporcionava noites de gozo às mulheres solitárias. Não eram mais os lírios laranjas ou Copos-de-Leite que faziam a beleza do ritual dito sacro. Não eram mais samambaias que suportavam a opressão dos apartamentos, nem mais a Espada de São Jorge que protegia do mau olhado. Não era mais o boldo que curava o estômago, nem a hortelã que refrescava o hálito. Não eram mais os ipês que coloriam a cidade. Nem mais o eucalipto salvava a sensação do reflorestamento. As macieiras já não provavam a gravidade, e a laranjeira não perfumava mais os campos. Romã não curava a garganta e o potássio da banana não aliviava as câimbras. O azedo do morango não arrepiava mais de dentro pra fora, como foram as paixões. As frutas nasciam estéreis nas gôndolas do supermercado, e as cascas, que protegiam a carne sem gosto, tinham o brilho dos plásticos. As raízes acimentadas levaram os pássaros sobreviventes a acreditarem na prisão. Os cantos que se ouvia, vinham apenas de caminhão. Não tinha mais grama para proibir pisar, fonte para não se banhar ou nas nuvens, desenhos para acreditar. Não havia mais motivo para olhar pra cima, nem chuva mais chovia para não molhar. Não precisava mais correr, do sol se proteger, água pra filtrar, nem a lembrança de plantar. Barro não sujava mais, formiga não picava e abelha não voava. A areia não se escondia sob as unhas e as ondas não desequilibravam já que o mar não mais se movimentava. Era um grande acumulado negro de petróleo brilhante, denso e farto, garantindo a principal matéria prima da vida humana e iludindo os olhos que ainda acreditavam nas cores. Não eram mais as relações humanas, eram as relações coisais que nos garantiam. Não era mais tristeza, nem solidão. Não era mais carinho, bichinho… Não tinha mais mais emprego ou patrão. Não era o sexo que aliviava, mas também não culpava. Não era mais excitação que constrangia, nem tesão que motivava. Não tinha choro, nem vela, nem violetas na janela. Não tinha cão ou dragão, mistério ou comédia, galã nem bufão, livros ou novela. Não éramos mais humanos…
Éramos o resto de um pesadelo que ecoava na mente dela.
Não eram mais rosas vermelhas que condensavam o amor que o homem não sabe descrever.
Não eram mais rosas amarelas que fortaleciam amizades ou as brancas que faziam a paz nas relações. Não eram mais os cravos que aconchegavam a saudade na cara da morte.
Não eram mais os antúrios que proporcionava noites de gozo às mulheres solitárias. Não eram mais os lírios laranjas ou Copos-de-Leite que faziam a beleza do ritual dito sacro. Não eram mais samambaias que suportavam a opressão dos apartamentos, nem mais a Espada de São Jorge que protegia do mau olhado. Não era mais o boldo que curava o estômago, nem a hortelã que refrescava o hálito. Não eram mais os ipês que coloriam a cidade. Nem mais o eucalipto salvava a sensação do reflorestamento. As macieiras já não provavam a gravidade, e a laranjeira não perfumava mais os campos. Romã não curava a garganta e o potássio da banana não aliviava as câimbras. O azedo do morango não arrepiava mais de dentro pra fora, como foram as paixões. As frutas nasciam estéreis nas gôndolas do supermercado, e as cascas, que protegiam a carne sem gosto, tinham o brilho dos plásticos. As raízes acimentadas levaram os pássaros sobreviventes a acreditarem na prisão. Os cantos que se ouvia, vinham apenas de caminhão. Não tinha mais grama para proibir pisar, fonte para não se banhar ou nas nuvens, desenhos para acreditar. Não havia mais motivo para olhar pra cima, nem chuva mais chovia para não molhar. Não precisava mais correr, do sol se proteger, água pra filtrar, nem a lembrança de plantar. Barro não sujava mais, formiga não picava e abelha não voava. A areia não se escondia sob as unhas e as ondas não desequilibravam já que o mar não mais se movimentava. Era um grande acumulado negro de petróleo brilhante, denso e farto, garantindo a principal matéria prima da vida humana e iludindo os olhos que ainda acreditavam nas cores. Não eram mais as relações humanas, eram as relações coisais que nos garantiam. Não era mais tristeza, nem solidão. Não era mais carinho, bichinho… Não tinha mais mais emprego ou patrão. Não era o sexo que aliviava, mas também não culpava. Não era mais excitação que constrangia, nem tesão que motivava. Não tinha choro, nem vela, nem violetas na janela. Não tinha cão ou dragão, mistério ou comédia, galã nem bufão, livros ou novela. Não éramos mais humanos…
Éramos o resto de um pesadelo que ecoava na mente dela.
08 de Março, 2015
Sou mulher!
Sou menina, negra, indígena, europeia
Sou o que corre no sangue e do sangue que planta na terra.
Sou violada, consumida, mutilada.
Sou fruto histórico, de processos revolucionários e de resistência.
Sou a dor de ser vendida, trocada, usada.
Sou mãe, filha caçula, amante, namorada.
Sou resultado de lutas constantes, vencidas e derrotadas.
Sou o clitóris cortado, o corpo abusado, a carne vendida.
Sou a pele enrugada, a beleza desprezada, o frio na barriga.
Sou a culpa do mundo e sangro por isso!
Sou o ventre que pare e a culpa disso.
Sou responsável pela dor, pelo pecado, pelo prazer.
Sou pacto com o diabo, lascivo e úmido poder!
Sou o mundo rosa, lilás, violeta, vermelho, vinho e preto.
Sou rotina de guerra com corpo, desejos, culpas e medos.
Sou complexa que cala e atura.
Sou inteira quando grito na luta.
Sou trabalhadora explorada, mão de obra barata.
Sou a irmã, a vó e a mãe do filho da puta.
Sou gay, sou bi, sou trans, sou de todos os gêneros.
Sou o que o mundo anula e amordaça de todos os jeitos.
Sou o colorido de toda mistura.
Sou animal contra-cultura.
Sou o útero que nega,
o corpo que carrega,
contra patriarcado, a cura!
Sou menina, negra, indígena, europeia
Sou o que corre no sangue e do sangue que planta na terra.
Sou violada, consumida, mutilada.
Sou fruto histórico, de processos revolucionários e de resistência.
Sou a dor de ser vendida, trocada, usada.
Sou mãe, filha caçula, amante, namorada.
Sou resultado de lutas constantes, vencidas e derrotadas.
Sou o clitóris cortado, o corpo abusado, a carne vendida.
Sou a pele enrugada, a beleza desprezada, o frio na barriga.
Sou a culpa do mundo e sangro por isso!
Sou o ventre que pare e a culpa disso.
Sou responsável pela dor, pelo pecado, pelo prazer.
Sou pacto com o diabo, lascivo e úmido poder!
Sou o mundo rosa, lilás, violeta, vermelho, vinho e preto.
Sou rotina de guerra com corpo, desejos, culpas e medos.
Sou complexa que cala e atura.
Sou inteira quando grito na luta.
Sou trabalhadora explorada, mão de obra barata.
Sou a irmã, a vó e a mãe do filho da puta.
Sou gay, sou bi, sou trans, sou de todos os gêneros.
Sou o que o mundo anula e amordaça de todos os jeitos.
Sou o colorido de toda mistura.
Sou animal contra-cultura.
Sou o útero que nega,
o corpo que carrega,
contra patriarcado, a cura!
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015
Presos
Há presos nas celas, nas salas, nos trens.
Há presos no tempo, no medo, nos bens.
Há presos em sentimentos, algemas, medalhas.
Há presos no sonho, nos risos, nas lágrimas.
Presos em empregos, rotinas, manias.
Presos à família, tradição, apatia.
Presos perdidos que seguem e fogem,
Presos focados que chegam e morrem.
Presos na vida por medo da morte.
Há presos no tempo, no medo, nos bens.
Há presos em sentimentos, algemas, medalhas.
Há presos no sonho, nos risos, nas lágrimas.
Presos em empregos, rotinas, manias.
Presos à família, tradição, apatia.
Presos perdidos que seguem e fogem,
Presos focados que chegam e morrem.
Presos na vida por medo da morte.
Penso...
Penso se controlamos o externo para que não tenhamos a consciência de que o interno não nos pertence.
Penso se criamos objetivos para não nos perdemos no infinito subjetivo que nos transita.
Penso se as regras não são apenas a mordaça na liberdade sem conceito que nos define.
Penso se os jogos sociais não são estabelecidos para que não lembremos que a solidão é nosso cerne.
Penso se não pensamos tanto apenas para calar nossos instintos.
Penso se criamos objetivos para não nos perdemos no infinito subjetivo que nos transita.
Penso se as regras não são apenas a mordaça na liberdade sem conceito que nos define.
Penso se os jogos sociais não são estabelecidos para que não lembremos que a solidão é nosso cerne.
Penso se não pensamos tanto apenas para calar nossos instintos.
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