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Ensaio Reticom

Ensaio Reticom

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Nada faz sentido mesmo...

Quando enxerguei que nada mais faz sentido, senti-me na pele de um suicida, que opta pelo desconhecido ao buscar forças para insistir por aqui.
Na minha visão, não refiro-me à morte, pois meu maior sonho é vê-la me procurar, e me encontrar aguardando-a com um sorriso honesto e reticente. Refiro-me ao tentar VIVER num esquema imposto para sobreviver.
Vivemos uma vida medíocre, em conta gotas, tentando adquirir bens inúteis que nos fazem mais felizes aos olhos alheios. Nos criam necessidades inventadas e nos dificultam o saber natural de viver em harmonia com a terra. Vendemos nosso tempo à empresas privadas ou órgãos públicos a fim de que estes paguem bem pelo nosso preciso espaço de tempo, pois nós não sabemos o que fazer com ele. Mas sabemos o tanto de coisa que se pode fazer com o papel que se paga.
Aprendemos que lei da sobrevivência é estruturada por desdém e desrespeito. E não devemos perder nosso tempo questionando tais bases, pois não há quem pague por isso. As coisas são assim, e devemos aceitar.
Somos igualmente desrespeitados pelo poder público, que administra nosso dinheiro desviando de seus fins, que seriam para pagar as condições básicas de uma vida, digamos, digna. Mas me deparo com televisões nos ônibus, que ofertam horóscopos, produtos industrializados e informações de "cidadania" como receitas ou "não coma gorduras" logo depois de um comercial de maionese. Enquanto ao lado, um senhor de barba branca passa por baixo da catraca. A catraca que tem seu corpo de ferro, quase até o chão para que dificulte ou impeça as pessoas de não pagarem.
Nosso ilusório direito de ir e vir, tem um preço. Logo ele está atrelado no "direito"/ DEVER de se ter dinheiro. Para se ter dinheiro, você aceita o que te ofertam, pois a demanda por conseguir qualquer dinheiro é imensa. Nossos direitos à alimentação, moradia, saúde, educação velam sob as mesmas rédeas. É o direito natural do TER. Eu não entendo bem, o que dificulta minha vida por aqui...
As que mais ofertam possibilidades de se ganhar qualquer dinheiro, são as empresas privadas. Que levantam milhões em alguns anos e repartem este dinheiro entre propagandas e chefões da coisa. Com os empregados, fica o minimo que o poder público obrigada a pagar, sob várias regras e papeis estúpidos que nos desencorajam a perguntar ou querer entender. As empresas privadas oferecem, em sua grande maioria, coisas que não precisamos. Mas lembra aquele dinheiro em propaganda? É para que eles nos convençam a precisar do produto. E eles convencem!! Daí a agente aceita ser empregado de uma empresa de merda, que trata mal os consumidores E os empregados, para ter dinheiro para pagar o governo e torce para uma sobra comprar um produto que não precisamos, mas achamos que sim.
O capitalismo nos cerca de opções para que acreditemos na liberdade de escolha. E nos impede, aterrorizando qualquer pensamento, de imaginar como seria uma vida social fora deste esquema. As pessoas não pensam nisso e não acreditam ser possível. E eu, penso, qual o preço que pagamos com nossa saúde e nossos nervos por um conforto inútil, fictício, inventado?
Aí vem um feliz empregado e consumidor me questionar: Se sou contra o capitalismo, porque tenho computador, internet e celular?. E eu, respiro em 10 longos segundos, que me fazem pensar que ele não pode ser capaz de entender. Porque tudo faz sentido para um parafuso que roda feliz vendo a máquina funcionar, e sabendo ele que faz parte desta força... É muito prazer! Difícil é para que não quer brincar de ser parafuso. Ou pra quem não consegue entrar e ser parafuso, nem porca, nem mola, nem graxa...

O que me é claro é que sou NATURALMENTE CONTRA O SISTEMA CAPITALISTA. Disso eu tenho certeza, por que a agressão é de fora pra dentro e a indignação me bomba de dentro pra fora . Porque eu não consigo aceitar o descaso com a vida por preço nenhum. Porque eu não durmo em paz quando me deparo com violências absurdas sofridas por quem não tem acúmulo de dinheiro. Porque eu não aceito ser desrespeitada por uma ordem que não educa, adestra. Que não convida, impõe. Que não abraça, sufoca. Que não pergunta, cala.
Eu não aceito ter que vomitar meu ódio em pessoas que sofre o mesmo descaso, só porque não tem com quem reclamar. Porque o "dono" nunca está presente. Ele paga alguém pra comer a merda! Eu não aceito que sejamos obrigados a comer esta merda porque se paga um dinheiro e então conseguimos comprar feijão pra pôr em casa. Pra alimentar, com sorte, futuros parafusos ou novos comedores de merda.
Eu não acho normal ver vidas jogadas a própria sorte numa floresta de concreto que envenena a comida que a terra dá. Eu não acho justo termos riquezas materiais imposta sobre a pobreza, a desgraça da humanidade.
Fingirmos ser o que? Se animal já soa vida inferior. O que pensamos ser?

Minha utopia em ver este sistema se engolir está estruturada pela palavra "ainda". É uma questão de tempo.
A utopia que o sistema alimenta para continuar devorando vidas, se sustenta com a palavra mágica: Deus.

Lembra que deus olha, culpa, pune, cuida
Aproxima a dor, a doença e a pobreza
Que bem vista aos olhos de deus, te compensa
Não pergunta, não luta, não resiste
Pois há no céu um senhor de barba que te assiste
Goza de tua dor, e com misericórdia
Te julgará após sua morte proclamando concórdia.








 

sábado, 29 de junho de 2013

Que seja bem vindo o caos

Medo de quê? Me pergunto dias depois de pensar em viver histórias que leio, de pessoas que admiro.
É sair na rua e trabalhar com pessoas, pela sociedade, para perceber que o medo já foi atropelado há muito tempo quando se encara o descaso. Quando se sobrevive aos escombros, o medo é no dia a dia, e não há tempo para que ele ganhe forças.
Meu medo foi engolido pela crença de que as coisas se mexeram, mudaram de lugar. Nada em seu devido lugar, mas há sinal de que o caos está vivo e ganhou corpo. E este caos precisa aparecer! Precisa incomodar aos que se sentem acomodados neste sistema inviável, desfuncional.

Teu cômodo conforta, mas o incomodado confronta.
Sem armas, sem destino, no sentido que esperança guia
Sem certo ou errado, quando se encara que sua fome é o certo social.
Se ninguém tem culpa, somos todos culpados.

Começa com um desvio de olhar, um atravessar
Uma grade, um alarme soa e cobre vozes,
Gritos e gemidos que a TV te explica.
Te confortando, aliviando, quase desculpando...

De olhos fechados e fone nos ouvidos,
Não há ainda o que tampe o nariz
Pois a desgraça da desigualdade tem cheiro
E empesteia tua feira, tua loja, teu caminho.

Mesmo sem querer incomodar, pois o normal já tem a pobreza
O crescente descaso gera massas que já pesam
Que desregulam esta gangorra suja e hipócrita
E quando quebrar, não terá distinção.
Estaremos todos no chão!


sexta-feira, 14 de junho de 2013

"Tem dias em que a gente se sente, como quem partiu ou morreu. (...) Ou foi o mundo então que cresceu?"

Ontem foi a primeira vez que senti medo. Medo da guerra quando entendida tão perto que se trata de vozes que clamam por justiça frente à uma parede estúpida de seres humanos manipulados e alienados, que não compreendem que esta batalha também é deles, pra eles, por eles. Massa de manobra, vítima do trabalhado alienante, a polícia agride de olhos fechados e coração acimentado. São como cães que vivem confinados, que passam fome, que sofrem agressões físicas e psicológicas e não entendem uma ação de carinho, de amor. Bater em pessoas que pedem o óbvio não faz o menor sentido! Quando eles deveriam estar nas ruas também, protestando contra seus baixos salários, a falta de acompanhamento psicológico, a falta de recursos materiais, a exposição à violência. Onde estavam contra o PCC em 2006, que mostrou quem realmente governa esta cidade? Não tinham a menor condição de guerrear contra os caras... Mas suas fardas viram a mão de deus contra estudantes, professores, índios, cidadãos! Cidadãos de cara limpa, armados de indignação e coragem.

Passei a noite em protestos e guerras. Minha cabeça não me permitiu descansar. Sonhei com bombas, fumaça, gritaria, sangue, escudos, flores, cimento, escuridão, buracos, medo. Acordei travada! Minha coluna, minha estrutura física foi abalada pelo choque psicológico. Perdi um dia de trabalho, com pessoas dispostas a compartilhar ferramentas de cura social e paz interna. Estou travada, perplexa, com dor, num buraco que do peito parece ter chegado ao outro lado. Dói quando respiro... Porque está difícil respirar com tanta fumaça, com tanta impunidade, com tanta vergonha! Minha estrutura não me traz segurança, está fragilizada, desestruturando...

Não se trata de uma semana de luta. Se trata de anos de injustiça e a primeira tentativa de respiro profundo e honesto depois que nos contaram que a ditadura militar havia acabado, em 1984. Se trata da primeira negação aos estúpidos bens material e o reconhecimento da falsa liberdade de escolha e expressão. Se trata do total entendimento social de que a democracia e seu significado tão expressivo nunca fez parte de nossa sociedade. Se trata de entender que a polícia é a mais grave classe trabalhadora afetada e manipulada por esta doença capital. Se trata de tirar da mídia o poder de informação, de comunicação pois vê-se agora, claramente, aos olhos de todos, quanta desinformação, mentira e despreparo formam esta classe de ego tão largo. Se trata da população entender seu força e assumi-lá. Que seja de consciência plena, pois seremos o buffet de grandes festas mundiais, e que nos lembremos que não há estrutura para tanta celebração. Não há animadores para estas festas, não há palhaços para entretenimentos vazios, não há mais espectadores de exploração, de riqueza esbanjada. Que não haja mais poderes fálicos engravatados estruturando nosso campo de ação. Que haja o povo, em plena ação de negação, de recomeço!

Parabéns aos moradores de São Paulo que abraçam a luta com suas participações individuais num coletivo que objetiva a integridade democrática.



quinta-feira, 13 de junho de 2013

Q.

Uma amiga me contava sobre os momentos em que perdera seus dois filhos e o marido. Dois assassinatos e uma morte em casa. A dor pesavam as lágrimas que não escorreram daqueles olhos vivos, escondidos pelo óculos embaçado, mas não devastou sua expressão em rugas, carregadas de vida e história, nem levou seu sorriso desacostumado daqueles lábios. Contou-me com uma força surpreendente sobre o filho assassinado a facadas na porta de casa, devido alguma briga com vizinhos. A indiferença da polícia em mais um caso na favela e a justiça torta da vida que levou o assassino ao encontro de sua própria morte quando tentou assaltar uma delegada. Contou-me sobre seu outro filho, que bebia muito e foi atropelado. Nenhum socorro ou sombra de justiça. Ele estava bêbado... Contou-me sobre o corpo morto do marido sobre o sofá, num mal súbito que não teve um nome que esclarecesse. Falávamos de murmúrios protestos que ninguém ouvia, ou ilustrava só mais um acontecimentos comum nas favelas de SP. Minha amiga falou tudo, com tanta força, para que pudéssemos apresentar mais um murmúrio de protesto cênico, concluindo uma etapa do nosso trabalho. Em uma semana, me preparei para encontra-la e revivia suas histórias, que de manhã, no ônibus, me violentaram o peito com muito mais agressividade do que nas palavras e nos olhos dela. Me refiz para encontrá-la, para trabalharmos com toda aquela honesta e desentendida indignação. Me refiz para juntar meu murmúrio ao dela, que vivia a indiferença e a dor da morte tão mais perto e tão mais forte. Minha amiga faltou ao trabalho, faltou no dia da apresentação pois seu outro filho fora assassinado na semana. Facadas e bebida! Meu abraço me aperta, me esmaga... meu abraço que é pra ela.
Nas ruas, nesta mesma semana, grande parte dos munícipes tomaram as ruas, motivados como gota d'água, pelo aumento abusivo das passagens do transporte público. Tomaram as ruas, enfrentaram o choque e são tratados como vândalos pela mídia que bebe das tristezas como as de minha amiga. Mídia que se alimenta da dor, da desgraça como o capitalismo se alimenta da desigualdade, da pobreza, da desinformação.
Frente a tudo, me questiono sobre o que é justiça. Como se faz ou se deixa fazer.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Graças ao Capital


Parabéns por ter vencido as lutas que te combatiam e ter fragmentado-as. Dissolver o inimigo, para que partículas consideradas hoje como "minorias" lutem pelas mesmas coisas com discursos diferentes, foi genial. Os que, de alguma forma, tentam mudar, precisam se focar em lutas que conseguistes isolar do todo.
Parabéns por conseguir escravos conscientes, que acreditam ser livres e ter poder de escolha. Parabéns por limitar o conceito de liberdade em posses materiais e viagens de fim de ano. Parabéns por ter conseguido com que todas as pessoas valorizem seu externo, seu visual, sua roupa, seu peso, seu cargo à tentativa de manter o caráter, a integridade, a ética e empatia frente à barbárie por você imposta.
Parabéns pela forma como naturalizou a desigualdade social e cultural, a violência. E como se alimenta disso! Como seus bens vencem o bem, como seus preços compram valores. Como fica fácil garantir a beleza ao redor! Seu afeto que afeta... fofo!
Parabéns pela felicidade da população presa na televisão. Da desgraça à alegria, tudo está em paz em frente à televisão!
Parabéns por ter conseguido que as pessoas se alimentem de produtos inventados, sintéticos, artificiais, afastando-as do trabalho da terra, do cultivar, plantar, sujar as mãos... Obrigada por manter distante dos nossos olhos os trabalhadores explorados que ainda atuam de joelhos sob o sol escaldante, por manter longe o que ainda resta de sofrimento mundano. Obrigada por camuflar a morte, o sangue e a dor das nossas comidas! Embalando-as em pacotes coloridos, mecanicamente manipulados para maior higiene. Obrigada por afastar nossa comida das mãos dos homens e dos insetos da terra. E obrigado pelo avanço da medicina que nos retalha para curar-nos dos males causados em conseqüência de tamanhos benefícios, substituindo órgãos, implantando ou reduzindo a carne que nos falta ou que nos sobra. Obrigada pela ausência da dor, da culpa, e o excesso da moral.
Parabéns por ter aliado-se à uma força superior, que nos julga do céu determinando nossos caminhos e escolhas, com segurança. Obrigada por isso, pois nos faz acreditar que tudo é como deveria ser. Que só Ele sabe e não nos cabe entender, só aceitar. Obrigada por tornar a pobreza tão próxima de Deus. Parabéns pela criação do Estado, que tende a estruturar nosso campo de ação, e que apesar de ser, de maneira muito justa, laica, não permite que falte a imagem de Cristo, loiro de olhos azuis, de nariz fino e lábios carnudos, nas paredes das escolas, dos hospitais e das salas de justiça.
Parabéns pela possibilidade da globalização, onde mesmo sem aceitarmos ou, se quer, entendermos a cultura alheia, criamos um mundo virtual para vivermos em paz. Onde todos podem ser famosos, bonitos, inteligentes expondo suas embalagens e competindo como num vasto supermercado humano. Parabéns por fazer com que as pessoas escolham viver com medo à acreditar em seu poder de mudança.  Parabéns por nos omitir o passado, e nos condicionar a uma produção em massa de pessoas, de produtos, de bens, de coisas. A propósito, parabéns por transformar Guevara em marca, Joana D’Arc em santa! Parabéns por ter deixado em datas comemorativas e feriados, a lembrança  de um passado a ser lembrado, hoje comercializado. 
Obrigada por calar nossas angústias e sofrimentos com a magia das drogas, legais e ilegais. E obrigada por eliminar com sabedoria os que não sabem utilizá-las e subvertem a ordem natural das coisas, dormindo nas ruas ou dançando pelado. Obrigada pela criação do inferno, e que estas pessoas possam se redimir e chegar aos reinos (monárquicos) do céu!
Parabéns pelos publicitários, que reduzem e simplificam nossa felicidade em pequenos produtos. Que compartilham com a pressa infantil, tornando adultos imaturos e ativos num mundo mágico de compras. Que passam a vida buscando pela felicidade nas prateleiras e nas vitrines. Obrigada por esconder das nossas crianças a feiúra do mundo e deixa-las sexys, bonitas e felizes com produtos modernos. 
Parabéns pela rápida contaminação das palavras, pela padronização da beleza, pela elitização da cultura, pela liberdade de expressão onde todos falam e poucos ouvem. Parabéns por conseguir manter a estrutura educacional do século XVIII ainda intocável! Parabéns por ter você, se disseminado de tal forma que as minorias que ainda tentam te destruir não sabem mais contra quem lutar! Genial separar as pessoas por sexo, cor, religião, emprego, cargo, condução. Genial transformar vidas em matéria prima, e matéria prima em matéria bruta descartável em poucos anos pela indústria da moda. Genial fazer-nos crer que somos livres em nossas escolhas, e que somos superiores às outras espécies, pois somos a imagem semelhante de Deus! Parabéns ao capitalismo por toda ordem, tradição e moral!
Com toda minha dor!

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Põe seu cabresto porque a roda é gigante

Quero escrever às pessoas que se julgam de bem, honestas e direitas e que discursam bordões como "Bandido bom é bandido morto" ou "Direitos Humanos a humanos direitos" e outras concepções de cabresto.
Quero também esclarecer ao meu próprio discurso, que pobreza não está relacionado com criminalidade ou vice versa. E convido aos que sentirem-se contemplados de alguma forma, à um estudo profundo sobre nossa história. Historicidade humana, história das civilizações, colonizações e tudo que estrutura o que temos e o que somos hoje. Pois quando olhamos pra trás entendemos o presente, e estando presente de maneira consciente, podemos criar o futuro.

Tais discursos partem de pessoas que acreditam ser boas, do bem e livres. Gozam de empregos cujo salários lhes pagam carros, casas, consumo e diversão. Sentem-se violentados quando agredidos por outro, que com arma, violência psicológica ou física, lhe arrancam um produto que custou-lhe tão caro.
Não. Ninguém tem o direito de arrancar nada de ninguém. Ninguém tem o direito de agredir ninguém.
Vejo apelos referente a maioridade penal, àqueles jovens que são capazes de roubar, agredir, estuprar, matar, que devem ser tratados como um adulto delinquente que rouba, agride, estupra e mata.

Não é a pobreza material que leva alguém a cometer tamanhas barbáries. Vemos com tamanha constância a criminalidade invadir famílias nobres, de rendas gordas. Por dinheiro, por ciúme, por desespero...

Não sei, não posso saber, não me cabe saber os motivos que levam alguém a cometer tanta violência para com o próximo. Mas sei que isso, toda esta barbaridade não se trata de fato isolado, de fato único. E me faz pensar se há a algo que não permita a formação íntegra das pessoas que as cometem. Quantas pessoas, nascem de fato, com tamanha perversidade? Quantas foram ou são crianças malignas, que torturam animais, que provocam brigas e desavenças? Penso que em algum momento da vida isto é brotado no ser.

Impossível avaliar casos de pessoas que não conheço. Amplio então, meu olhar a uma sociedade que exige e impõe regras bruscas e que, se não seguidas, as consequências são piores. Somos adestrados a termos comportamentos semelhantes. Estudamos para entrar numa roda gigante que de tão grande, não nos permite ver quem a controla. E não se pode descer, exceto se arriscar pular. Mas há tanta gente nesta roda gigante! Uns sentados, tranquilos. Outros tentando sentar, se capacitando. Outros pendurados nas grades, também tentando sentar. Mas há aqueles que nem sabem porque estão lá! Por que rodam rodam, sem sair do lugar? Por que não se pode escolher outro brinquedo? Por que não se pode rodar no chão? Por que esta roda, acelera e não pára para que as pessoas que não querem brincar, saiam e dê espaço aos que creem nesta roda? E nem aos que aceitam estar na grade, nos ferro, podem se adaptar por lá! Não pode!! Atrapalha o rodar!

As cadeiras não estão aqui como conforto material, mas de conforto mental e tranquilidade de vida. Numa roda onde todos querem e deveriam poder gozar da mesma tranquilidade. Sem risco de cair.
Na sociedade, me refiro às pessoas que não se adaptam às regras impostas, se perdem num buraco fundo nelas mesmas, cavado cada vez mais por aqueles que, confortáveis, se incomodam com as perguntas. Os confortáveis têm medo da mudança, então optam por tirar de suas vistas as dúvidas e as ausências de respostas que podem provocar tamanha indignação aos outros que equilibram a roda. Deixam tudo como está e retiram de alguma forma, de qualquer forma, aqueles que não se adaptam. Mesmo que os joguem lá do alto! E tudo ainda vem com cobrança: "Por que não se adapta? É vagabundo? Luta pela tua cadeira!!" Se orgulha: "Eu trepei ferro a ferro até chegar aqui!" Fica, aos que se cavam, a dúvida do tempo que se perde, das escolham que se faz, o medo de não conseguir, o desespero por não ser. Por não fazer parte.
Não há espaço aos que precisam se entender, se buscar, para refletir se quer rodar! Somos obrigados a rodar! Somos obrigados a lutar por uma cadeira, para que possamos envelhecer sentados e em segurança. E nos cabe defender esta cadeira aos nossos próximos, e pra isso fechar os olhos aos que não aguentam mais trepar em ferro. Fechar os ouvidos para as perguntas de quem têm dúvida e para os gritos dos que caem. Cruzar os braços para não pôr um estranho em seu espaço. Deveriam ao menos, fechar também a boca! Para que engulam suas omissões, seus preços e não cobrem do outro aquilo que se quer brota no seu peito.

É um ato de desespero pedir para matar àquele que afetou tua integridade.
Falta atos de compaixão para entender se a integridade do outro não fora afetada para que ele chegue ao ponto de querer-te morto.
Falta empatia para entender porque um objeto, hoje, vale mais que uma vida. E vale mais que a vida de quem morre, e mais que a vida de quem mata.
Falta senso para perceber que, se outro está doente, você nunca terá paz. Pois dividimos o mesmo espaço, o mesmo ar, a mesma água...

Se criou objetivos de vida que não são verdadeiros nas vidas de todos.
Se criou a obrigatoriedade de aceitá-los. A consequência de nos permitir questionar, entender.
Não temos escolhas, e aos que se perdem entre a dúvida do que ser, numa sociedade que ninguém é, cabe a exclusão para não atrapalhar aqueles que aceitam ser o que tanto trabalha para ter.

Falta ser humano ao bicho homem.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Crônica Irônica

"De súbito, ela caiu. Se apoiava cansada sobre a pia da cozinha, depois de chorar por um dia inteiro uma tristeza que não a pertencia, que apenas lhe invadiu e se instalou no peito. Seu olhar havia levado seus pensamentos em uma estrada estreita e brumosa, onde não se via mais nada na imensidão do branco. Não se ouvia mais nada... E num súbito, ela caiu! Caiu em prantos, com uma dor insuportável, que tentava arrancar às unhas, cavocando o próprio peito, abrindo fissuras na própria garganta. Seus olhos inchados já não suportavam mais tamanha produção lacrimal. E chorou! Chorou aos berros, aqueles cujo arranhar nas pregas vocais se faz com o resto de ar que há entre os órgãos, que apoia as vísceras. Sua avó, com seus oitenta e seis anos, mal sabia o que fazer. Mal suportava nos braços o peso da neta. Foi violentada pelo choro, envergonhando a menina que sofria sem argumentos.Como entender que a dor é do outro? Como explicar que tamanha tristeza não te pertence? Seu choro cessou ao abraço forçado da avó e seu corpo inóspito esparramou apoiando sobre as pedras geladas fixas no chão da cozinha. Seus olhos perdiam-se na busca de alguma razão. O ar não transitava em seu corpo. Não saía. Não entrava. Sem ar não há voz. Sentiu-se pela primeira vez imbuída de silêncio. Mas sua voz gritava num vácuo imposto. Que dor sufocava seu centro. Que grito amarrado e condenado à pressão silenciosa do ar se debatia em seu centro. Em alguns minutos, a menina levantou e foi tomar banho, deixando a velha de olhos arregalados, sentada sem jeito no chão. Com custo, a velha chegou ao telefone e buscou chamar sua filha, mãe da menina, morta há sete anos. Sem domínio do moderno aparelho, sem domínio de suas emoções, sem domínio do presente...
Nada como a força da água para lavar a alma e incentivar águas paradas. A menina chora. Chora agora o choro que é seu, nascido da incompreensão de uma dor avassaladora que lhe calou a gratidão e lhe embranqueceu as cores da vida."

quinta-feira, 14 de março de 2013

Só transforma quem quer

Sopra ao sangue suga cego
sempre só, que seja sozinho.
Supera ao silêncio tardio
tratando de travar trevas e tretas aos
Tatus bolas bolando balaios e babados
Bancando bêbados sem culpa
Caretas, carentes, consumo e gula.
Grudam, giram gomas, gelatinas
Geleias sintéticas, sintetizam
sentimentos superados
pela urgência supra em sermos algo além de nós mesmos.

Embalagens bonitas, belas bostas
Corpos ocos copos ocres
Cucas carecas por dentro tão pobres
Palavras pomposas, posturas, poderes, papaias
Patadas dos podres poderes presos pela ganância
gritante e grudante de grana.
Garantia de emprego emprega prego que não pensa no alcance do trabalho.
Trabalho treta de trazer transformações totais, transcendentais, transexuais, terrenas e sociais.
Sozinhos sonhamos sem saber que sonhos sozinhos não transformam ninguém.

Então voa ao vento ave risonha
Que em teu bando encontra a solidão.
Deixa distante dores medonhas
Vaza as nuvens, aos meus olhos, feitas de algodão
Rebenta rédea, fura a firma firme feito furão
E alcança a fumaça bruma que impede a visão.
Porque a liberdade não cabe na palma da mão.    

quarta-feira, 13 de março de 2013

Falta a ausência da ansiedade em tudo que me formei.

Não me pergunte por que eu choro
Porque eu não sei porque a paciência se afastou de mim
Não sei onde se escondeu a calma dos primeiros passos

Sei que corri em uma direção e cheguei num mundo de palavras ricas, de significados provocativos
E me percebo turista, mas não quero sair. As palavras insistem por entendimentos e fico por lá,
me perdendo entre significados. Ah, quanto peso que faz sentir-me leve!
Quanta facilidade de expor a ferida sem escancarar a carne.
Quanta simplicidade ao expor a carne em pedaços, morta, com crença de vida. Está por todos os lados.

Claro que não quero voltar! Claro que temo às palavras ocas que decoram espaços empoeirados
Como é difícil à minha prepotência reconhecer-me no açougue. Não pertenço (ainda) a este lugar...
E em cada dança com os textos, me embriago acreditando que posso fingir morar aqui.
Logo a realidade me tomba, com o peso da gravidade.

E de fato, entre o real, ainda são todos pedaços. Pedaços que sobraram e se debatem com tanta força e privação, que não me soam atraentes. Mas suas escritas, seus domínios...! Que produção!

Reconheço-me tão perdida, e tão distante no meu próprio caminho.
Que de vagar, sigo de olhos fechados. E quando sinto uma mão, me permito chorar.
A confiança no outro, faz a minha respirar.
Falta a ausência da ansiedade em tudo que me formei.


sexta-feira, 8 de março de 2013

Que minha indignação possas ser o combustível do meu Amor, nunca do meu ódio.

Que vergonha me arrebata quando eu esqueço, por um segundo, a beleza de se fazer o Bem.
Que vergonha quando permito que minha indignação me derrube, me impossibilitando de fazer o Bem.
Que vergonha quando as opiniões mesquinhas, cegas e egoístas me paralisam diante de fazer o Bem.
Quer vergonha sinto, ao ver o Bem, que todos estes os sentimentos egoístas e cegos me invadiram, me enfraqueceram, me derrubaram. Pois existem em mim.
Que vergonha me desviar do meu caminho por desacreditar no caminho do outro.

Acredito no Bem, no Amor e me perco quando julgo que as pessoas estão perdidas.
Julgamentos nos atrasam.
Vou permitir que as pessoas se afastem. Me permitir afastar.
Ceder-me ao desconhecido.

Que possas estrar sempre próximo do Bem. O Bem íntegro, sem hipocrisia.
Que possas ter força para afastar os que fingem o Bem
Que possas ter coragem de negar aos que trabalham excepcionalmente e só pelo próprio Bem.
Que minha indignação possas ser o combustível do meu Amor, nunca do meu ódio.
Que minhas dificuldades possam me transformar mais forte!

Assim seja!