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Ensaio Reticom

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quarta-feira, 31 de maio de 2017

Parto... sem volta

Hoje faz 13 dias que o parto me partiu...
Parti numa viagem sem volta,
Ainda que com revolta
Partiu em dois uma dor que me sorriu.

Na indignação com injustiças
Escolhi me boicotar do maior poder.
Mas as surpresas desta vida
Me deu um prazo para escolher

Na violação, no domínio sobre meu corpo
Decidimos receber o presente.
E no tempo que me pareceu ausente

Foi outra a batalha, mais uma pra somar
Com uma força sem igual, de amor aparente
Somo dois numa luta por direito de ser gente. 

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Ao pesar a vida, tira de noite, pra fique suportável.

Apesar das limitações
Apesar das proibições
Apesar das punições
Apesar das sanções

Apesar dos julgamentos
Apesar dos pensamentos
Apesar dos apontamentos
Apesar dos apartamentos

Apesar da pobreza
Apesar da tristeza
Apesar da indelicadeza
Apesar da incerteza...

Apesar das regras
Apesar das rédeas
Apesar das médias
Apesar das previas

Apesar das ameaças
Apesar das trapaças
Apesar das desgraças
Apesar das mordaças

A pesar o mundo dos homens
Contrabalanceando o mundo que não precisa deles...
Eu danço com a liberdade dos bichos
Que vivem sem precisar saber-se livres!

A pesar o que se impõe a si (à mim)
Na dança, se dissolve
Quando meu corpo se move
e em mim, fica a pesar a leveza da vida
Sob a certeza da morte.
Apesar dos homens...



terça-feira, 18 de outubro de 2016

Acimentar (2015)

Sinto acimentar.
Não se vive nas metrópoles... Se faz urgente acimentar.
Aceitar a violência em sua forma mais sutil... A pobreza em sua forma mais ornamental.
Não se pode deixar sentir a miséria, é urgente disfarça-la.
Ocupar os olhos, enganar os ouvidos, fingir ar fresco.
Não se tem tempo para sentir tudo que foi arrancado, acimentado, cortado, gradeado, calado, morto!
Se fingir vivo, ocupado, importante e acima de tudo feliz!
Se olha a desgraça alheia para confortar, se ocupa de todas as formas para não parar...

Sinto acimentar.
O creme cinza, de atraente aparência enquanto fresco - fresco!
Te enrijece de dentro pra fora, limitando os movimentos, estreitando espaços até que a força vital se concentre no passo a passo, no dia a dia, no pão de poucos de cada dia. A energia se esgota na insistência de superar o cimento, cada um por si.
A cidade não tem espaço para malemolências, sentimentalismos, ócio ou zen;
A cidade acimenta quem vem e ilude sobre a riqueza que tem.

Sinto acimentar
Na dor aguda no centro do dorso, nem chega ao coração.
Pesa aos ombros, entorta a coluna, cheira solidão.
Os pés firmes se iludem no sapato, que se firma no cimento, mal sabe o que é chão.
Ah os homens da cidade...  já criaram a solução!
Na lista do CID minha angústia já tem nome.
Descrita com termos técnicos, impositores, assustadores, convincentes
É tanta técnica e tecnologia e eu tonta, tentando ser gente!

Sinto acimentar o abstrato, o tato, o trabalho...
A arte, as relações em partes, o lucro, o gozo
Confundindo recompensa com satisfação
Sinto que se não acimentar, não entro no jogo, não.







segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Parecia que havia uma vida

Parecia que havia uma vida
Uma vida pronta, lapidada
Esperando ser vivida, assumida
Esperando uma dor ser superada
Dor de empatia, de olhos, de injustiça
Dor de esperança, de ardor, de polícia
Dor de sonho revolucionário
De identificar e passar por otário!

Chamada de imaturidade
Esperar que o mundo mude
Trabalho como atitude
Esperar da vida, solitude!
Representar o papel social
E ainda ser mulher integral
Tateio uma força essencial
Que não havia neste grau
Mulheres idosas, sábias e sem ideal
Me plantaram os pés no chão... Sem igual!

Parecia que havia uma vida
Esperando eu estar vivida
De lutas, de brigas, de tentativas
Esperando meu recuo, minha prerrogativa
A desesperança que cativa...
O silêncio que ativa
A força que cedia
para o que era de ser meu um dia.


quarta-feira, 20 de julho de 2016

Na ordem do capital

As turbulências estão constantes
O filtro parece entupido...
Da política inconstante às pessoas de instante
As tentativas tolas de estar certo,
Fechados como livros na estante.
Editoriais corrompidos.
Consumidos.
Cansativos.

A tentativa de acompanhar
É vencida e maltratada por uma vida pra inventar.
Tentando respirar, entre cinzas
Que nos poemas nos permitem suspirar,
ainda que ranzinzas.

O frio castiga, empurra pra baixo e pra dentro,
Quem deveria estar atento, ocupando o centro,
Não dormindo em calçada, abraçado ao relento.
Os injustiçados focam na sobrevida,
Os privilegiados, em graus determinados,
se dividem nesta briga: 
Alienados, obedientes, pau-mandados...;
Indignados, acadêmicos e revoltados;
E os tranquilos burgueses mal amados!

Tudo na ordem piramidal!
Tudo no caos natural,
Do capitalismo normal.





quarta-feira, 29 de junho de 2016

É isto!

É isto!
O que foi dito, está dito
Ditado e doído
De dor ou de alívio
Dito dilúvio

É isto!
Foi feito e sentido
Efeito do dito irado
Ecoa, ressoa
do dito machucado.

É isto!
Teu dito
Meu calado

Foi isto!
Teu dito ressentido
Pensado no vivido
Alívio de ter dito
E a mim machucado.

Foi isto!
Dito do passado
Da dor de agir errado
Por ti assim julgado
Em mim fica pesado.

Foi isto,
Teu dito
E meu calado...

É isto!
Digo agora de mim
Teu dito no meu calado
Fez do erro ser arcado
Peito pesa por um lado...

É isto!
Do espaço superado
Passado foi plantado
Do adubo me foi dado
Gera broto germinado.

É isto!
Teu dito
Meu alado.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

ComFusão

Em tempos de ódio, um respiro de amor soa ofensivo!

É necessário se preservar, resistir às imposições da moral burguesa, questionar sem medo, pois se houver respostas, que elas nos levem à outras intermináveis perguntas!
Eu prefiro viver em fusão com aquele que se dispõe, com o contexto que se impõe.
Com fusão se funde, se fode;
se mescla, se morre;
se mata e renasce!
O medo de sentir dor faz a gente inventar amor.
Amor posse, amor sonho, amor doce..
Que arde, adoece, adormece, enfraquece.
E de ardente não passa da epiderme.
Amortece na pele sem destruir razões, sem veracidade...
Por medo de desfazer o que por tempos te fez verdade.
Eu prefiro o caos que destrói uma base covarde,
e nos pedregulhos restantes, do ócio à novos instantes.
Eu prefiro a insegurança, o medo e o alarde
À naturalização do desdém, do alguém, ser ninguém.
Que falsa segurança se provém,
De uma vida limitada, por medo da arrancada,
Que com a morte ou na pancada,
Em todo mortal, sempre vem!

sábado, 5 de março de 2016

Pétalas no chão

Sempre gostei das pétalas pelo chão
O vento trás e o despetalar da flor se põe
Sempre entendi o sopro com uma benção
Até entender que entre nascer e morrer
                                   ... a vida se impõe

Me questionei se estamos vivendo
Quando não pude ir onde desejei
Me questiono se estamos morrendo
Quando aceito o imposto, no desgosto
                            ... que não planejei

Tenho escolhido olhar pra cima
Acreditando na chuva como alívio
No abraço sincero me sentir acolhida
E forte para resistir, insistir e pelo outro
                       .... não me aceitar vencida

Há sempre, em toda história, a opressão do Estado
Calando povos, que pelo trabalho, no minímo
                                    ... Respeito deveriam ter!
Assassinatos e suicídios findam sonhos, ideologias
De quem não aceita, não compactua com o jogo do poder.


domingo, 13 de dezembro de 2015

Indústria Cultural



A compreensão de Indústria Cultural pode-se partir da ideia dada de industrialização da cultura, ou seja, a cultura como um processo de desenvolvimento contínuo, acelerado e repetitivo para compra e venda e para atender (e criar) uma demanda de marcado. Se entendermos o papel fundamental da Revolução Industrial para o modelo socioeconômico capitalista, rédeas da atual sociedade mundializada, se faz possível uma compreensão mais larga sobre este conceito para a cultura. E se, segundo a sociologia, cultura é tudo que o ser humano constrói, reproduz e reforça de geração em geração, por meio de comportamentos, ações, relações que caracterizam uma sociedade, torna-se possível entender que há então, na proposta de Indústria Cultural, uma otimização do processo de produção de cultura. Como se fosse necessário acelerar as produções culturais, característica especificamente humana.
Neste acelerar de produções culturais, não é possível acelerar gerações. Para que a cultura se defina enquanto característica de um povo, são necessárias gerações que fortaleçam esta construção social. A industrialização da cultura não respeita este tempo de estruturação e passa a produzir uma cultura a ser consumida, mercantilizada. E objetiva, em uma única geração, a consolidação de sua proposta comportamental por meio de mercadorias que caracterizam e definam o sujeito social, como música, moda, filmes. Assim, no senso comum, a cultura é facilmente confundida com arte.
A arte é uma manifestação exclusivamente humana, assim como a cultura, e por meio dela faz-se cultura. Como uma expressão do sujeito, a arte torna possível a construção objetiva, palpável, de sentimentos e condições subjetivas, sensações que todos os humanos reconhecem, mas poucos conseguem objetivar em palavras, formas, sons ou movimentos. Como saudade, amor, raiva... Todas estas palavras são códigos para que consigamos nos entender, foram criadas a partir de manifestações que buscavam definições para o que humano sente. Culturalmente elas se fortaleceram em nossa sociedade, tornando-se códigos comuns, mas artisticamente elas nunca serão definidas, determinadas a uma única manifestação, ampliando possibilidade de entendimentos.
A Indústria Cultural assume então a produção artística, e fazedores de arte para o mercado consumidor, criam peças que dialogam com nossas angustias, com nosso vazio, com nossas insatisfações, provocando uma rápida identificação ao ser humano que busca respostas para suas subjetividades. Vale lembrar que vivemos em uma realidade que não nos permite tempo e espaço para a produção artística que concretize nossas subjetividades, então saciamos esta necessidade numa busca externa. Nosso trabalho limita-se em atividades repetitivas cuja produção não nos pertencem e nosso tempo fora dos empregos são consumidos por mercadorias que são vendidas para nosso entretenimento, ou melhor, distração. A indústria cria momentos para que não precisemos pensar, afinal, trabalhamos a semana inteira e merecemos descansar! Este ritmo de vida imposto é resultado desta indústria que, vinculada à criação de nichos de mercado, de novas necessidades, constrói novos comportamentos sociais, ou seja, constrói cultura.
Se a cultura é uma construção natural do ser humano e passa a ser industrializada para ser consumida, ela deixa de ser um produto resultado de um trabalho para ser mercadoria resultado de um emprego! A cooptação da produção artística pelas rédeas do capitalismo provoca uma hegemonia cultural, onde o mercado mundializado cria e atende demandas por todo o planeta, tornando “natural” as mesmas formas de se comportar, se vestir, se alimentar... Podendo causar ao longo da história um genocídio cultural, descaracterizando povos que são julgados atrasados, não civilizados e causando nos sujeitos um processo de desaculturação. Para que esta cultura do capitalismo, do consumo, do fortalecimento de subjetividades individuais que parecem saciadas na compra de mercadorias seja compreendida como natural, é imprescindível que outras instituições participem desta construção cultural.
Quando a educação institucional passa a ser obrigatória ao termino da chamada primeira infância compreende-se o valor desta educação para a formação do sujeito social. É lá, na escola, que aprendemos os valores alimentados em sociedade, como se comportar, como se relacionar, como trabalhar... E ao longo deste processo educativo saímos prontos para dar continuidade a esta cultura depois de doze anos.
A formação de professores e pedagogos atende a esta necessidade de hegemonia cultural, fortalecendo padrões de comportamento por meio de sujeito frutos da Indústria Cultural, que inibe a criatividade humana, a produção artística do sujeito limitando sua forma de comunicação. A arte passa a ser distanciada, reconhecida num mercado fechado e especifico de atuação. E o possível interesse da juventude em se desenvolver artisticamente fica estruturado à fama, reconhecimento e sucesso, subjetividades que são frutos culturais da hegemonia do capital.
Professores e educadores que fortalecem esta ideologia acreditam ser imparciais no processo de ensino proposto, pois como fruto desta cultura do capital, eles entendem o comportamento de adaptação e valores sociais (apoiados na subjetividade do indivíduo) como naturais ao ser humano, e obedecem às regras como movimentos orgânicos da sociedade. Produtos de uma educação privatizada, de ideologia neoliberal, estes profissionais são formados de acordo com a demanda de mercado, e não com qualquer intuito de questionar a realidade capitalista. Ideologicamente devem contribuir com a formação do sujeito para que ele tenha uma boa profissão e conquiste bens materiais e sucesso, estruturas para o conceito de felicidade da cultura do capital. Palavras definidas pela Indústria Cultural ao “fazer” artistas que expressem o que precisamos saber para nos manter socialmente equilibrados.
Toda naturalização desta cultura produz intelectuais e artistas orgânicos na manutenção desta ideologia. Segundo os autores da obra “Brevíssima Introdução à Sociologia Crítica”, a Ideologia é o discurso que mascara os verdadeiros interesses do indivíduo, que surge por meio de suas ações. É quando o professor explicita sua preocupação em relação ao desenvolvimento da criança, mas a proíbe de desenhar livremente ou pintar o mar de rosa. Este exemplo aplicado à educação infantil demonstra que o verdadeiro interesse do profissional é adaptar a criança à realidade, e não desenvolver seu potencial. E esta ação aparentemente incoerente não faz do professor um sujeito maldoso, mas um sujeito tomado pelos valores da Ideologia dominante que dita o certo e o errado, o que pode e o que não pode, o que é arte e o que não é. Assim como alguém que almeja em ser reconhecido como artista sofre com a exigência do mercado que propõe a adaptação de sua obra para que seja reconhecida como arte e atenda uma demanda ou nicho especifico de consumidores. Perde-se aí a honestidade do produto por meio de um processo mercadológico.
A Ideologia dominante não é reconhecida enquanto ideologia na cultura do capital. É naturalizada como comportamento humano. Qualquer outro discurso que questione esta ideologia é reconhecido pejorativamente como ideologia, construindo assim uma ideia comum de que ideologia refere-se a ideais utópicos, sem fundamentos, radicais e subversivos. Mas na sociologia, ciência que parte do senso comum para construção sólida de conceitos, esta compreensão divide-se em duas grandes teorias ou correntes de pensamentos sociológicos. Uma, inserida e de acordo com a ideologia do capital, naturalizando à condição social humana e valorizando conquistas individuais e outra que questiona esta naturalização e possibilita a imaginação, a criação, de uma nova realidade que compreenda e sacie as necessidades humanas básicas, sem invenções. Uma realidade que proporcione o uso fruto do produto àquele que o desenvolveu e não reduza sua força de trabalho, sua humanidade, sua existência a mais uma mercadoria à venda.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

A inimizade ideológica entre o amor e a liberdade - Introdução

A amor como construção burguesa limita-se à uma relação monogâmica cujo objetivo está em ambos serem felizes pra sempre! Com a benção de deus até que a morte os separe! Aos moldes DisneyWorld.
A liberdade, apoiada na mesma construção limita-se no indivíduo e seu poder em exercê-la. A minha liberdade termina onde começa a sua. Aos moldes do capital!

A ideia de esperar alguém que nos preencha é a mesma utilizada no marketing na venda de mercadorias cuja necessidade social foi criada pelo mercado, e embutida no indivíduo. "Você será feliz se adquirir o produto". Um produto resultado de mão de obra alheia e expropriada dos trabalhadores que investiram tempo e força de trabalho à um objeto que não lhes pertence. Pertence àquele que compra, e o objetivo é que traga a satisfação e completude como quando a realização de se produzir um produto cujo valor de uso será do próprio trabalhador.
A felicidade, um conceito duvidoso, é por Marx definido pelo momento de realização da pessoa após um trabalho realizado. Lembrando que o conceito de trabalho está apoiado na dialética materialista, quando o trabalho transforma a matéria-prima E o sujeito. Na atual conjuntura, qual o emprego que proporciona a dialética? Qual a função exercida que transforma o indivíduo intelectualmente? A limitação das nossas ações, somada ao exercício da repetição e a rotina, torna-nos mecanizados e alienados frente ao processo todo de produção, impossibilitando-nos de gozar de nossas próprias forças de trabalho.
É neste contexto de expropriação que aprendemos a buscar no outro a vida que nos falta. Este encontro, quando ocorre, é preenchido com as demais necessidades (intermináveis) de ser feliz. A compra de um carro, de uma casa própria, filhos, escolas de qualidade, empregos estáveis que nos permita comprar, possuir, adquirir e acreditar que somos felizes. 
A liberdade se encaixa no direito de ser feliz, de buscar a felicidade para sempre. É a liberdade do ratinho enjaulado correr na rodinha sempre que quiser. Precisar pagar pela água, pela comida, pelo destino do cocô, só me dá a liberdade-obrigatória de conseguir dinheiro pra isso, custe o que custar. E no caminho, espero o encontro do grande amor que me saciará a incompletude, e também, ser aquela (única) que calará as angústias alheias. Se a falta do dinheiro me faz faltar as condições básicas (água, comida, cocô), pensar no amor de outro para me completar soa uma possibilidade ainda mais longínqua, mas ainda palpitante nos sonhos mais urgentes, desde criança.
Dentro das atuais condições, onde direitos básicos são violados, há ainda a cobrança de se ter alguém, UM alguém, O alguém, que não atuará como sujeito de possibilidades empáticas e de alteridade, mas sim como homem e mulher para construção divina da família, cujo sonho e objetivo, é a propriedade privada, fetichizado como a casa própria.
O fetiche, para Marx, é quando um produto, resultado da força de trabalho, vira mercadoria, uma coisa metafísica, fruto de relações objetivas de produção com alto valor de troca. Um carro é um meio de locomoção. Uma ferrari parece te levar pra outro lugar... "A forma mercadoria é a síntese das relações sociais que se erigem a partir do trabalho, de tal forma que essas relações dão-se 'não como relações diretamente sociais entre pessoas em seus próprios trabalhos, senão como relações reificadas entre as pessoas e relações sociais entre coisas'" (BOLOGNESI, 1996)

Marx nos alerta para a construção das relações pessoais coisificadas e relações sociais entre objetos, mercadorias no capitalismo. Considerando nossa realidade alienante, onde nos sobra vida não dormida esperamos das relações sociais o que nos prometem à venda das mercadorias. Quando nos apaixonamos, nos referimos ao outro como numa monarquia (príncipe, princesa), reproduzindo a ideologia e fetichizamos a relação. Aprendemos com o "direito natural da propriedade privada" que o que é meu é meu por direito. Aplicamos esta mesma lógica ao que é nosso por conquista - quase meritocrático -  e toda esta relação tornada social, consequentemente, se reflete nas relações pessoais.
Ser a mulher de alguém, entregue das mãos do pai ao marido. Ritual que se repete e fortalece a condição de objeto da mulher sem muitas explanações materialistas. A mulher tende a reproduzir o comportamento ao chamar de seu o homem com o qual se deita. O ato de possuir uma pessoa remete-me à escravidão, nada mais.
Voltamos ao amor! O amor como mercadoria fetichizada que promove a relação de posse entre o casal, é o amor que se permite na ideologia burguesa. Valores como fidelidade são focados no ato sexual e desconsiderado na relação que deveria ser pessoal. O compromisso é exigido carnalmente, visível aos olhos da sociedade que parece produzir mais uma mercadoria para venda. O valor de troca dos casamentos são mais elevados que o valor de uso, já que é comum que os casais se aturem para honrar o contrato. Relações pessoais estabelecidas por um contrato de reconhecimento do Estado e legitimação legal e inquestionável.
Quando se é posse, a liberdade deveria ser um ideal. Mas forma-se uma difusa utopia quando se acredita ser livre, adotando o conceito de liberdade do ratinho na gaiola, com a sensação de que se pode correr na rodinha sempre que quiser... A questão permeia nos indefiníveis conceitos de amor e liberdade, na complexidade do que se sente, considerando a construção cultural que muitas vezes nos define de fora pra dentro, e o comportamento social frente à estes dois maiores desejos da humanidade.